quarta-feira, 11 de abril de 2012

Comigo não, violão dirá São Paulo em 2012

Ih, São Paulo ainda vai
>
> surpreender muita gente!
>
> José Nêumanne
>
> Lula faltou à aula de História e tucanos esqueceram noções de
> aritmética na prévia
>
> Nenhuma cidade brasileira é tão grande, nem tão cosmopolita, nem tão
> complexa para administrar como São Paulo de Piratininga. Seu eleitor
> se deixa levar pela emoção como qualquer outro, mas mais do que
> qualquer outro presta atenção no fato biológico de que a mão que vota
> é a mesma que põe no bolso para guardar ou sacar dinheiro e também a
> que usa para cumprimentar, persignar-se, pedir ou dar. Vai ver que é
> por isso que seu comportamento é tão sutilmente peculiar que nem os
> mais habilidosos políticos conseguem entendê-lo por inteiro. Para
> tanto nem precisa ter nascido aqui, como Jânio Quadros, de Mato
> Grosso, seu alcaide no começo e no fim da carreira. Há, contudo, que
> lhe dar atenção, até mimá-la um pouco. Raros entenderam isso como
> Jânio, um dos poucos que partiram dela para um voo federal, embora de
> galinha. O mais frequente dos adversários de Jânio, Adhemar de Barros,
> por exemplo, ganhou e perdeu eleições para prefeito e governador e
> nunca governou o País.
>
> Nunca se deixando conduzir, mesmo quando não conduz, conforme
> determina o dístico de suas armas e barões assinalados, São Paulo
> comporta-se de forma singular em relação ao restante do Brasil. Também
> tem certa predileção irônica pela contrariedade. Quando os idiotas da
> objetividade concluíram em conjunto que seu eleitorado era mais
> conservador do que a média nacional, talvez pela prosperidade, a maior
> cidade brasileira deu o triunfo a uma sertaneja pobre, solidária,
> desvalida e desprovida de encantos físicos, Luíza Erundina de Sousa,
> contra um paulistano milionário e oportunista, Paulo Maluf, 22 anos
> antes de Dilma Rousseff chegar à Presidência pelo voto. Repetiu a dose
> com uma sexóloga da alta sociedade, militante do Partido dos
> Trabalhadores (PT), Marta Suplicy. Da mesma forma como, quatro anos
> depois, não lhe permitiu a reeleição, sufragando o adversário, oriundo
> do bairro proletário da Mooca, José Serra, no mesmo dia em que
> pesquisa de opinião registrava o apoio da maioria do eleitorado à
> prefeita como gestora. Vai entender! Quatro anos depois, um militante
> anônimo praticamente sem currículo se reelegeu para o cargo que ocupou
> com a vacância do titular (que o deixou para ser governador),
> derrotando um ex-governador e de novo a ex-prefeita.
>
> São Paulo, a comoção da vida do poeta Mário de Andrade, é uma caixinha
> de surpresas e nada indica que tudo vai ser diferente na temporada que
> se está abrindo para escolher o sucessor de Gilberto Kassab (PSD). Do
> topo de seus 80% de popularidade à saída do segundo governo
> presidencial, o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva, de seu QG em
> São Bernardo do Campo, resolveu ungir candidato próprio e estranho à
> militância petista na capital paulista para nele erigir as bases de um
> projeto político unívoco, a começar pela conquista da Prefeitura e
> continuar pela subida das colinas do Morumbi. Recorreu até à
> comiseração pelo diagnóstico de um câncer na laringe para retirar a
> renitente Suplicy do caminho e ungir seu ex-ministro da Educação
> Fernando Haddad.
>
> Durante cinco meses, com Lula preso ao hospital pelos achaques do
> tumor, o candidato único do PT desfilou pelo Planalto de Piratininga
> como único herdeiro do Padim Padre Cícero da periferia do Ó, mas até
> agora não conseguiu ultrapassar humilhantes 3% nas pesquisas de
> intenção de voto. E isso com o PSDB fazendo de tudo para asfaltar seu
> caminho para o Viaduto do Chá: três secretários municipais e um
> deputado estadual se prepararam por um tempo interminável para
> disputar uma prévia que, no final, foi vencida por José Serra.
> Vencida? Bah! Os tucanos levaram cinco meses para entender o óbvio:
> que a intenção do governo federal e de Lula era federalizar a campanha
> municipal em São Paulo e só engoliram o óbvio depois de verem a boiada
> de todos indo definitivamente para o brejo sem um candidato apoiado
> por um prefeito com R$ 7 bilhões em caixa para tornar a cidade um
> canteiro de obras em ano eleitoral. Aí, apelaram para a velha
> regra-três. E lá veio Serra ganhar a prévia adiada por 15 dias pela
> margem de 2,1% de votos a mais que os dados a José Aníbal e a Ricardo
> Tripoli. Se alguém ainda tiver alguma dúvida quanto ao que significa a
> expressão “vitória de Pirro”, está convidado a perscrutar o ânimo dos
> vencedores daquela memorável “prova da democracia interna do PSDB”.
> Enquanto o velho mito da cara nova patina nos 3%, o melhor candidato
> que a oposição ao governo federal tem para encarnar o “comigo não,
> violão” da orgulhosa São Paulo contra os planos de dominação do PT
> ostenta esse triunfo esquálido de dar dó.
>
> Ah, mas nós não perdemos por esperar! Este jornal já deu em manchete
> que Brasília descerá em peso para engordar os índices indigentes do
> professor Haddad. E ansiamos pela recepção espetacular que a Vila
> Carrão dará a Gleisi Hofmann, a virada do eleitorado do Jardim Ângela
> quando souber em quem votará Gilberto Carvalho e, sobretudo, o
> esmagamento das pretensões tucanas pela imensa popularidade desfrutada
> por Ideli Salvatti na Vila Brasilândia. Quem duvida que será um deus
> nos acuda?
>
> Não que Serra não esteja cuidando de ajudar o adversário: não chamou
> de “papelzinho” o recipiente de sua promessa de que não renunciaria à
> Prefeitura para disputar o Estado ou a Presidência dois anos depois? A
> vitória do vice Kassab após a quebra de promessa desidrata um pouco as
> esperanças de quem pensa que esse deslize do ex-governador lhe pode
> ser fatal nas pretensões este ano. É um erro de cálculo que se
> assemelha talvez ao de Lula, que faltou à aula de História em que
> teria aprendido que seu adversário-mor teve maioria dos votos
> paulistanos contra ele próprio em 2002, Marta em 2004, Mercadante em
> 2006 e Dilma em 2010. Como advertiu Garrincha ao técnico Feola em
> 1958, é bom consultar os russos antes de contar com os próprio
> dribles. Isso vale também para o tucanato em flor, esquecido das
> noções de aritmética na prévia.
>
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> (Publicado na Pág. A02 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 11 de
> abril de 2012)

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