terça-feira, 11 de março de 2014

BREVE RESGATE HISTÓRICO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES – PT EM SERTÂNIA - PERNAMBUCO


Wellington Santana Lima[1]*




APRESENTAÇÃO
Em janeiro do corrente ano de 2014, encontrei-me rapidamente com Josessandro Andrade, no pingo do meio dia, na Rua do Monteiro, quando ele me falou sobre um encontro a ser realizado com os atuais filiados – antigos e novos – do Partido dos Trabalhadores, do Diretório Municipal de Sertânia, para um balanço dos mais de trinta anos de existência do PT no município, e como muitos dos que participaram dessa construção original ainda estão vivos, embora nem todos ainda continuem filiados a esta legenda, eles são a memória viva dessa história a ser contada.
Visto que a grande maioria dos novos filiados pouco sabe sobre a trajetória do PT desde a sua fundação até o presente, Josessandro solicitou-me escrever um pouco do que vivemos, como contribuição à (in)formação para os que chegaram pós PT Governo Federal.

1. 

   O  COMEÇO
     Desde 1978 que sindicalistas, intelectuais, estudantes, líderes de movimentos populares, militantes de organizações clandestinas que combatiam o regime militar, entre outros, vinham discutindo a necessidade de se criar um novo partido político no Brasil, de perfil popular, democrático, independente e de orientação socialista.
     Esta ideia maturou no seio da sociedade até que em fevereiro de 1980, representantes de 17 estados reuniram-se no Colégio Sion, em São Paulo, e com 101 assinaturas, foi fundado o PT e lançado o seu Manifesto.
     Na época eu vivia no Recife e morava na Casa de Estudantes da Universidade Federal de Pernambuco, onde mantive contatos com professores e estudantes que participaram ativamente da construção do PT – Nacional.
     Víamos o PT como uma importante e poderosa ferramenta para organizar os trabalhadores; um partido criado pelos “de baixo”, por dirigentes populares com destacada atuação nos movimentos sociais, para fazer uma disputa política em todos os níveis com vistas à construção permanente de uma sociedade onde todos respeitassem as diferenças individuais e se reconhecessem coletivamente iguais nos seus Direitos mais fundamentais. Esta sociedade, essencialmente democrática, era a sociedade socialista a se buscar.
     Num primeiro momento, não encontrei entre os estudantes de Sertânia que moravam no Recife, disposição para a organização do PT nas bandas do Moxotó. Então, eu soube que em Arcoverde havia pessoas que simpatizavam com o novo partido e que o Professor Alder Júlio Ferreira Calado estava organizando-o na região.
     Fui a Arcoverde e participei de uma dessas reuniões de organização, numa minúscula Sede (garagem), no bairro de São Geraldo, onde já haviam constituído uma Comissão Provisória do Diretório Municipal do PT – Arcoverde. Nesta dita reunião encontrei um mecânico da concessionária Mercedes Benz, Geovane Bezerra Feitosa, sertaniense que morava em Arcoverde, e partimos pra organização do PT em Sertânia, sempre nos finais de semana, que era quando tínhamos algum tempo disponível.
     A legislação político-eleitoral da época exigia a filiação de um percentual mínimo do número total de eleitores do município para que o partido pudesse existir oficialmente numa cidade. Pra agravar a situação, Sertânia estava sem Juiz de Direito e tínhamos que resolver tudo em Afogados da Ingazeira.
     Em Sertânia, mais alguns colegas quiseram engrossar as fileiras do PT para romper com a tradição política da nossa cidade e as estruturas conservadoras dos grupos políticos que se revezavam na Prefeitura. Num primeiro momento, somaram-se: Flávio Magalhães, José Pires Freire, Gessione Bezerra Feitosa, Dema dos Correios, Adelson e Romero Lourenço do Alto do Rio Branco, Abel Martins (doceiro), Irason da Celpe, Prof. Antônio Siqueira (Cheriño), José Adelmo Cavalcanti (Véi), Paulo Roberto Cavalcanti, Francisco de Assis Cavalcanti (Nena), Renato Vitor (Ceará), Luzimar mecânico – marido de Dôra de Seu Veríssimo, Nino de Dona Quitéria do Alto do Rio Branco, entre outros. Após quase um ano de filiações, enfim conseguimos o número mínimo de filiados, quase todos do Alto do Rio Branco e da Rua do Juá. Desde o início fomos criteriosos sobre quem convidar para filiar-se, pois queríamos evitar que aproveitadores se filiassem para fazer do PT uma sigla de aluguel para seus interesses particulares e puramente eleitoreiros.
     Foi um processo cansativo, mas que também teve seus momentos engraçados. Por exemplo: numa das vezes que fomos ao Cartório de Dona Hilda de Siqueira Campos registrar as fichas de filiação, ela em tom de gozação disse: “Ao invés de Partido dos Trabalhadores, vocês deviam criar o Partido dos Preguiçosos e Desocupados”. Ao que lhe respondemos: “Este a Senhora cria e coloca seu filho, Manga Rosa, como Presidente”. Todos caíram numa gargalhada, inclusive ela.

2. UM PARTIDO VIVO
     Algumas características diferenciava o PT dos partidos existentes no Brasil. Notem que me refiro a um tempo passado. Quando eu percebi que este partido trilhava por caminhos que negavam os princípios que nortearam a sua criação, eu pedi desfiliação[1]. A seguir, vejamos alguns pontos daquilo que foi sua proposta original. O que ainda permanece e o que foi abandonado? Você dê a sua própria resposta.
2.1    Intervenção social e política institucional.
Como Partido de massas, democrático e socialista[2], o PT não se limitava a participar das disputas eleitorais periódicas. Entendíamos que para implementar e sustentar as transformações sociais objetivadas pelo Partido, a população precisava está mobilizada e capacitando-se permanentemente. Por isso, os militantes do PT eram orientados a participarem dos movimentos e organizações populares na cidade e no meio rural, como ativistas na organização e nos avanços do campo democrático e popular.
A inserção do PT nos movimentos sociais e a sua participação nas eleições tinham o claro propósito de reforçar que nossas ações não devem se esgotar nas reivindicações imediatas, mas buscar sempre contribuir para o objetivo maior que era a transformação da sociedade, com a eliminação das causas da exploração, da discriminação, da opressão e de todas as injustiças. Assim, a participação política da sociedade não deveria terminar no momento do voto, pelo contrário, ela precisa se fortalecer antes e durante todo o processo eleitoral, para além das eleições.
E do mesmo modo que defendíamos o controle interno das bases sobre as direções do Partido, na sociedade defendíamos o controle social da população sobre as instituições do Estado, como forma de combatermos o uso desses instrumentos para defender interesses particulares que não sejam os da população como um todo. A participação efetiva nas discussões e decisões, bem como o controle social na implementação das políticas públicas, são uma vacina contra qualquer forma de tirania e elemento essencial na construção da sociedade socialista que buscávamos.
Quanto mais politizado estiver o povo, maior será a participação popular na discussão e definição do que seja prioritário nas políticas públicas, maior será o respeito aos setores discriminados como as mulheres, os indígenas, os negros, os portadores de necessidades especiais, os homossexuais,... e maior será a igualdade de oportunidades desses setores e de toda a população.
Do planeta Terra ninguém pode fugir, portanto, a defesa do meio ambiente diz respeito ao futuro da raça humana e o PT somava-se aos movimentos ecológicos na defesa de modelos de desenvolvimento que preservassem a fauna, a flora, o relevo, os mares e rios, se contrapondo a tudo o que pusesse em risco a vida na Terra.
Sob o lema: “Terra para quem nela trabalha”, outra bandeira histórica do PT era uma Reforma Agrária que democratizasse o acesso à terra e que fosse mais além do que a simples distribuição de terras; que promovesse o desenvolvimento e o acesso das famílias do campo a tecnologias limpas que garantissem uma produção agropecuária saudável à saúde dos produtores e consumidores, bem como toda uma infraestrutura de escoamento e abastecimento campo-cidade.
Os programas de Governo do Partido dos Trabalhadores eram discutidos com as bases que o constituíam e a Reforma Urbana com políticas públicas de habitação e urbanização centradas no direito à moradia e na regularização dos espaços urbanos ocupados e loteamentos irregulares, era pauta obrigatória.
Governar e legislar para transformar eram lemas dos que gradativamente iam ocupando mandatos no executivo e no legislativo, com vistas a acumular forças para as transformações estruturais na sociedade. Governar cidades, estados e o país e atuar nos respectivos parlamentos com honestidade e eficiência não bastava. Era preciso ocupar estes espaços institucionais para combater os privilégios, a exclusão social, toda sorte de injustiças e dar suporte à organização e à participação popular como elementos fundamentais para transformar a ordem política e socioeconômica vigente.
Inverter prioridades era outra meta. Promover políticas de distribuição de renda, acesso à educação e a saúde públicas gratuitas e de boa qualidade em todos os níveis, era um caminho a se percorrer, contrário à concentração de riqueza e de poder por poucos. Era exatamente seguir em direção contrária ao que sempre fizeram as elites que governaram o país, estados e municípios.  Significava utilizar os recursos públicos e orientar as ações dos órgãos públicos em benefício das maiorias excluídas.
Democratizar o poder público através de mecanismos de controle social para evitar o abuso de poder e o autoritarismo. Assim, nenhuma decisão de um governo petista deveria ser escondida da população. Muito pelo contrário, deveria facilitar que a população fiscalizasse a administração e a gestão dos recursos públicos. Ter as prestações de contas periodicamente publicadas seria uma das práticas de transparência pública.
Os parlamentares do PT deveriam ter como linha mestra dos mandatos populares que exerciam o projeto político do Partido contidos nos seus documentos oficiais – Manifesto, Programa e Estatuto – sempre levando em conta o interesse público e a defesa dos direitos não atendidos ou não existentes para a maioria, rompendo com a tradição clientelista e fisiológica da troca de favores.
A atuação parlamentar deveria está articulada com os movimentos sociais e as lutas populares, numa perspectiva de transformação social e com vistas à construção de uma sociedade ainda não experimentada em nenhum país.

3. A CONSTRUÇÃO DO PT EM SERTÂNIA
Enquanto perdurou a fase dos trâmites burocráticos e das filiações cartoriais, elegemos e registramos em Cartório, uma Comissão Provisória do Diretório Municipal do PT-Sertânia, sendo Flávio Magalhães o Presidente dessa Comissão até quando, em fevereiro de 1983, passamos a existir oficialmente em Sertânia.
Entre nós, os pioneiros, não havia vaidades do tipo: ser o filiado de número 1, ou ser o primeiro presidente do Partido no município. Tanto é que convidamos para se filiar e ser o presidente do 1º Diretório Municipal do PT-Sertânia, o funcionário público Carlos Celso Uchôa (do DER), ex-presidente do Grêmio Estudantil da Escola Olavo Bilac nos anos 70, e que fora filiado ao MDB durante o período em que havia somente dois partidos políticos no Brasil permitidos pelo Regime Militar (ARENA – Aliança Renovadora Nacional (extrema direita) e MDB – Movimento Democrático Brasileiro (centro-esquerda)). Ele havia retornado a Sertânia recentemente, após ter vivido vários anos fora.
Uma das primeiras ações desenvolvidas por nós foi a produção de um jornalzinho para divulgar nossa existência e nossas ideias sobre a organização da sociedade, as lutas sociais existentes no Brasil e sobre como víamos a política nacional, internacional e local. Buscamos um nome para o jornalzinho que destacasse o “P” e o “T”. O nome encontrado foi Primeiro Traço.
A nossa principal dificuldade era financeira. Quando íamos filiar alguém, além de explicarmos qual a proposta política do partido, também deixávamos claro que todo filiado precisava contribuir financeiramente com o partido, de acordo com suas posses. Pois, sendo um partido nascido de baixo, seus filiados era sua base de sustentação em todos os sentidos, inclusive financeira.
Éramos pouco mais de cem filiados e o que arrecadávamos mal dava para a publicação do jornalzinho Primeiro Traço. Sem estrutura, era difícil até mesmo levar ao conhecimento de toda a população que existíamos oficialmente no município. Com muita dificuldade chegávamos com o nosso time de futebol a alguns sítios. Quando marcávamos um jogo, a condição era que, no intervalo, pudéssemos falar com a torcida e com o time adversário sobre o Partido dos Trabalhadores.
3.1    AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 1988.
     Em 1984 participamos da campanha para eleger Lula Presidente. Foi quando, pela primeira vez, estivemos em todos os Distritos de Sertânia e, consequentemente, pudemos apresentar uma referência nacional que era vista na TV, e dizer: este é o nosso partido e estamos nos organizando em Sertânia.
Finalmente, chegou a nossa vez de participarmos de uma eleição local e nos apresentarmos como alternativa ao “pastoril político”, tão comum nos pequenos municípios brasileiros.
Desde a emancipação política de Sertânia, esta viria a ser a eleição com mais candidatos a Prefeito. Foram seis candidatos: Marcelo Lafayette - PFL (eleito); Arlindo Ferreira – PMDB; José Etelvino – PL; Antônio Dantas – PTB; Paulo Brito – PDT; e o PT que apresentou a chapa Wellington Santana (Peba) – Prefeito e Prof. Antônio Siqueira (Cheriño) - Vice-prefeito.
3.1.1    A Campanha
Alguns meses antes das eleições, quando estavam postas somente as candidaturas de Arlindo e Marcelo, fomos procurados pelo pessoal do PMDB que articulava a candidatura do Prof. Arlindo Ferreira dos Santos. Este encontro aconteceu na Escola Olavo Bilac, à noite. Pelo PMDB foram Prof. Ivan Ferreira, Fernando de Clóvis, Chico de Paula, e Luciano Teixeira. Pelo PT foram Flavio Magalhães, Geovane B. Feitosa, Wellington Santana, e o Pastor Neilton, da Igreja Batista, recém-chegado do Recife, que não podia se filiar a partidos políticos, mas era simpatizante do PT e nos apoiava.
O PMDB provocou o encontro, mas nada de novo nos foi apresentado, pelo contrário, a experiência do Prof. Arlindo – que já fora prefeito de Sertânia em duas outras ocasiões – era o que mais importava; disseram que a grande maioria dos estudantes de Sertânia que estudavam no Recife (potenciais eleitores do PT) estava com o PMDB, pois estes estudantes tinham consciência de que nós não tínhamos a menor chance de ser uma alternativa de governo para Sertânia naquele ano e pregavam o “voto útil” (votar em quem pode ganhar) - nesse momento desdenharam de nós e cometeram um grande erro, quando disseram que nós não tínhamos dinheiro nem experiência em eleições e que os cerca de trinta votos que teríamos não influenciariam em nada no resultado das eleições de novembro, e só serviria para sermos ridicularizados; argumentaram ainda que o PMDB aglutinava as forças progressistas e ficar fora dessa frente era uma posição conservadora, e que o mais sensato seria a gente aderir à candidatura do Prof. Arlindo e apresentar um candidato a vereador pra ganhar experiência. A vantagem, segundo eles, é que teríamos espaço num palanque forte e público (gente) para ouvir nossas propostas.
Respondemos que quando fomos convidados para conversar com o PMDB, esperávamos que nos fosse apresentado um programa mínimo de governo diferente do que foram os governos anteriores do Prof. Arlindo, e que discutiríamos uma aliança em cima de pontos programáticos pra saúde, educação,... Mas, como o que interessa ao PMDB é o rendimento eleitoral e nesse ponto somos insignificantes pra vocês, pois só teremos cerca de trinta votos, seguiremos trilhando nosso próprio caminho. Dissemos ainda que éramos um Partido em construção e tínhamos certeza de que uma candidatura nossa à Prefeitura não ganharia as eleições, mas que representava um ganho político, pois esta era a primeira grande oportunidade de apresentarmos nossas propostas à população, visto que as campanhas eleitorais são um dos poucos momentos em que as pessoas discutem e se interessam por política.
Na nossa convenção, além da chapa majoritária, apresentamos cinco candidatos à câmara de vereadores. Foram eles: Geovane Bezerra Feitosa, Irason da Celpe, Dema dos Correios, José Cecílio (Penera), e Silvan Martins, do Alto de Afogados.
Por ironia do destino, nas eleições de novembro recebemos dez vezes mais votos do que a coordenação de campanha do PMDB previra - tivemos cerca de trezentos votos - e Marcelo Lafayette (PFL) venceu Arlindo Ferreira (PMDB) por uma diferença de apenas 126 (cento e vinte e seis) votos. Outra curiosidade: apesar de no cômputo geral termos ficado na 6ª posição, na cidade fomos mais votados do que o candidato do PDT, Paulo Brito.
Nossa campanha foi diferenciada das demais candidaturas e muito participativa. Primeiro, porque fomos os únicos a apresentar pontos programáticos de Governo para Sertânia nas áreas de educação, saúde, agricultura e pecuária, meio ambiente, finanças públicas, limpeza urbana, saneamento e pavimentação da cidade e dos Distritos, entre outros. Segundo, porque não praticamos a compra de votos e o clientelismo. Terceiro, porque produzíamos coletivamente o nosso material impresso de campanha e tínhamos nossas próprias brigadas para pintura de muros e colagem de propaganda (não pagávamos a cabos eleitorais, pois tínhamos uma militância pequena, mas aguerrida). Quarto, porque quando íamos à zona rural e aos Distritos, dividíamos tudo, inclusive a alimentação. Quinto, porque inovamos na maneira de fazer comícios - ao invés dos comícios com uma grande estrutura de palco, com vários artistas, show pirotécnico, etc. fazíamos vários “bate-papos” em diferentes locais da cidade num mesmo dia, acompanhados por Lula sanfoneiro e sua banda, gratuitamente, pois todos eram filiados. Sexto, porque tínhamos um discurso propositivo e afinado entre os nossos candidatos e nunca agredíamos os candidatos adversários. Sétimo, porque durante toda a campanha demarcamos bem nossas posições, visivelmente diferentes e até antagônicas a dos dois blocos conservadores, e assim pudemos sempre afirmar que "não nos unimos nem nos confundimos".
Foi uma campanha muito bonita e elogiada até pelos adversários. Mas o apelo ao voto útil (votar em quem tem chance de ganhar), além da compra de votos pelos nossos concorrentes, somada a nossa débil condição financeira e de infraestrutura (transporte, som, material impresso, etc.) fez com que nossas candidaturas sequer chegassem ao conhecimento de toda a população. Porém, quem nos ouviu gostou, e muitos desses nos procuraram após as eleições para se filiarem ao PT.
3.2    E APÓS AS ELEIÇÕES?
Após as eleições todos os partidos no município entravam em hibernação e só voltavam às atividades quando se aproximavam de uma nova corrida eleitoral. Conosco era diferente: realizávamos reuniões do Diretório Municipal regularmente; participávamos dos Encontros regionais e estaduais do Partido; a cada dois meses nos reuníamos com os diretórios municipais da Microrregião do Moxotó/Ipanema para discutirmos nossos problemas comuns e apresentarmos soluções, onde também discutíamos táticas e estratégias de atuação na região e em cada município. Enfim, éramos uma organização viva. Dessas discussões, nos anos seguintes conseguimos crescer não somente organizativamente, mas também institucionalmente, elegendo vários vereadores na região, inclusive em Sertânia.
Vejamos por exemplo como se deu, em 1996, a candidatura e eleição do Prof. Izidoro Simões – egresso do PDT – e que se filiou ao PT após as eleições de 1988. Antes da Convenção que o indicou candidato único do Partido a vereador, Izidoro vinha prestando serviços de utilidade pública com o seu carro de som e, também, assumindo a defesa do funcionalismo público e de outros movimentos sindicais. Sempre prestativo e combativo, o professor Izidoro ganhou a confiança do funcionalismo público municipal e doutros segmentos da sociedade local, para ser a voz que faltava na Câmara de Vereadores de Sertânia. Apesar de Izidoro já ter sido candidato a Prefeito pelo PT, em 1992, sua indicação como candidato a vereador não foi automática. Em primeira instância foi escolhido Geovane Feitosa como o candidato único do Partido à Câmara de Vereadores nas eleições de 1996, pois ele tinha sido o candidato mais votado a vereador pelo PT nas duas eleições anteriores, além de ter sido um dos fundadores do Partido no município. Inclusive, um dos argumentos usados por Flávio Magalhães contra a candidatura de Izidoro naquele ano, foi de que para ser candidato único do PT era mais confiável alguém que estivesse no partido desde o início, e Izidoro tinha vindo do PDT.
Porém, Geovane declinou da sua candidatura e, então, Izidoro foi aclamado candidato único do PT e, posteriormente, veio a ser eleito vereador com mais de 500 votos.
Também foi nas eleições municipais de 1996 que o PT-Sertânia fez a primeira aliança político-eleitoral. Ângelo Rafael Ferreira dos Santos – herdeiro político do seu pai, Prof. Arlindo Ferreira dos Santos – buscou o PT-Sertânia para propor uma Aliança. Os “bocas pretas”, seus principais adversários, já estavam na Prefeitura há vários mandatos consecutivos e o próprio Ângelo havia sido candidato a prefeito e perdido as últimas eleições. Na mesma convenção do PT-Sertânia que escolhera Izidoro como o candidato do partido a vereador, apareceu um emissário de Ângelo Ferreira propondo uma Aliança com o PT.
Ângelo e seus assessores dessa vez mudaram totalmente sua tática. Para eles, cada voto a mais seria de fundamental importância para derrotar seus arque-adversários. Então, propuseram ao PT: implementar todos os pontos programáticos de Governo para o município apresentados pelo PT nas eleições anteriores; garantir a efetiva participação no futuro governo, através de três secretarias; e sugeriu que não apresentássemos candidato a vereador, pois havia limitações legais ao número de candidatos por coligação e eles precisavam trazer mais apoios à candidatura de Ângelo, oferecendo vagas a candidatos a vereador de locais estratégicos do município.
O PT concordou com os dois primeiros pontos da proposta, mas não abriu mão de ter um candidato a vereador, pois na nossa avaliação, depois de eleito Ângelo poderia implementar ou não os pontos programáticos acordados, bem como manter ou retirar os secretários indicados pelo PT, durante a sua gestão, ao passo que um mandato de vereador conferido pelas urnas, jamais ele podia tomar.
Eles concordaram com tudo e a aliança político-eleitoral foi feita. Nas eleições de novembro, Ângelo Ferreira foi eleito Prefeito com certa folga e o PT elegeu seu primeiro vereador em Sertânia.
3.2.1 Novos rumos
Havia um grupo interno ao PT que acreditava que se mantivéssemos a nossa linha de coerência entre o discurso e a prática e caminhássemos lado a lado com os movimentos sociais incipientes, dando-lhes apoio nas suas lutas, dentro ou fora do Governo, gradativamente iríamos crescendo na preferência popular, até chegarmos inteiros e de pé para ser e fazer um Governo Municipal em Sertânia, do nosso jeito. A estimativa era de que entre 15 e 20 anos após a fundação do partido no município, isto é, a partir de 1998, quebraríamos a polarização entre “bocas pretas” e “bandeiras brancas” e seríamos uma força política em condições de disputar com chances concretas de vitória a Prefeitura de Sertânia. Porém, os caminhos seguidos foram outros e os resultados, também.

APÊNDICE
PARTIDO DE MASSAS: É um partido em que milhares de pessoas de diferentes etnias, religiões, sexualidade, lutas sociais, formações acadêmicas, profissões e organizações de classe, se identificam e se unificam na luta contra a exploração e opressão de qualquer matiz. Em suas fileiras, elas assumem o compromisso da emancipação coletiva em várias frentes de lutas.
Partido de massas não significa que o principal objetivo é ter meio mundo de votos nas eleições. Embora aumentar a representação nos parlamentos e executivos seja importante, de nada valerá se a participação popular se resumir apenas ao momento do voto. Essa ‘massa’ não é de manobra, mas de milhares de agentes de transformações sociais ativos.
Partido de massas tampouco significa partido sem direção política. Eis porque nos diversos níveis de sua organização e atuação, deve existir pessoas capacitadas para intervir politicamente tanto nos movimentos sociais quanto no institucional (parlamentos e governos).
PARTIDO DEMOCRÁTICO: Ao contrário dos partidos onde quem manda e decide tudo são algumas lideranças ou quem detém mandato no parlamento ou no executivo, num partido democrático existe democracia interna, e cada pessoa filiada tem o mesmo direito de participar das discussões e decisões coletivas nas reuniões e encontros partidários.
Partido democrático não é um partido de cabos eleitorais pagos para realizar as atividades partidárias, alienados dos processos de decisão, nem é um partido onde se proliferam as disputas por cargos comissionados, mas de militantes ativistas que carregam conscientes e decididos o projeto político do partido, segundo as táticas e estratégias definidas nos seus documentos básicos e nos seus encontros e congressos.
PARTIDO SOCIALISTA: todo partido político é formado para defender os interesses de uma formação social e, por isso, uns lutam para manter a sociedade como está e outros para mudá-la.
Se um partido é controlado por banqueiros, industriais e latifundiários, ele vai defender os interesses dessas pessoas (é o caso da maioria dos partidos do Brasil). Este partido vai lutar para manter e aumentar os privilégios dessas pessoas, para que estes aumentem cada vez mais sua riqueza e poder de decisão. Por isso, não vai querer nenhuma mudança nas “regras do jogo”, na maneira de governar, no regime econômico-político-social ou no que quer que seja que se abra a uma maior participação popular com vistas a mudar a correlação de forças e poder numa sociedade capitalista.
Se um partido é dirigido por trabalhadores conscientes das condições estruturais geradoras da formação social em que estão imersos e assumem a posição da classe a que pertencem e representam, este partido deve defender os interesses da maioria da população, combatendo a exploração econômica, as injustiças, a exclusão, a pobreza e a dominação política dessa maioria por uma minoria concentradora de riqueza e poder nos moldes capitalistas, este partido é dito socialista.
O socialismo assim visto é essencialmente democrático e difere, portanto, dos modelos burocráticos que outrora existiram na ex-União Soviética, no leste europeu e na Ásia.
Um partido socialista também não concorda com as propostas socialdemocratas, pois estas não apresentam hoje qualquer perspectiva de superação histórica do capitalismo. Com o tempo, os socialdemocratas deixaram inclusive de acreditar numa transição parlamentar ao socialismo e abandonaram não a via parlamentar, mas o próprio socialismo. Nos últimos anos, vários governos socialdemocratas, nos quatro cantos do mundo, aplicaram programas neoliberais, tal e qual os governos conservadores da Direita.
Para um partido socialista que defende este modelo de socialismo essencialmente democrático, as mudanças estruturais de uma sociedade em benefício da maioria somente ocorrerão pela vontade dessa maioria, e um partido socialista e independente tem um importante papel a desempenhar nesse processo, participando das lutas sociais e institucionais referenciando-se numa estratégia socialista, para que efetivamente haja sustentação e consequentes avanços históricos rumo a uma sociedade sem privilegiados e que garanta os direitos de todos os humanos e de todos os tempos.
Sertão do Moxotó, fevereiro de 2014.
*



*Wellington Santana Lima foi quem, aos vinte anos de idade, em 1982 – 1983, iniciou a construção do PT em Sertânia.


[1] Pedi desfiliação em fevereiro de 2004. Na ocasião, eu era membro do Diretório Municipal de Arcoverde.
Em 2002, escrevi uma Cartilha para filiadas, filiados e iniciantes no PT. Esta cartilha dá uma visão geral e resumida do que era o Partido dos Trabalhadores.
[2] No apêndice deste breve resgate histórico do PT-Sertânia tem um resumo do seja um partido de massas, democrático e socialista.

METAMORFOSES CARNAVALESCAS

jomard muniz de britto, jmb.
 
É preciso continuar tendo FÉ na COPA
e nos carnavais pelo ano inteiro.
Com XICO SÁ no caldeirão dos mitos:
-“Bote óbvio nisso ad infinitum”.
Infinitamente todas as garotadas da
Livraria Jaqueira ao Instituto AR-
QUEOLÓGICO, todos carnavalizando.
Esqueçamos O CORVO do NUNCA MAIS
e continuemos desejando SEMPRE MAIS.
De todos os ARrecifes. ARdentes.
Porque Olinda “não pode agonizAR”,
ó Clóvis, folião mais ecológico revendo
BAJADO na reinvenção de Fernando Augusto.
Tudo pode ser saudável melancolia no
BLOCO da SAUDADE. Fi(d)el saudosismo.
Sempre irradiando paixões e pulsações pelo
GALO da MADRUGADA mais ainda
disputando frevanças com o Bloco do NADA.
Do Pátio de Santa Cruz com anjos e demônios
transfigurados no MAR de todas as ondas,
abismos, blogs, módulos e metaleiros.
Por que não experimentar o frenesi da
MARCHA das VADIAS na rua da Aurora?
Tudo pode indicar experimentação no AR.
Esperemos sem temer o Batman carioca no
MARCO ZERO sobrevoando ladeiras e odores
olindenses e metropolitanos.RECIFEDE?
Relembremos camarotes desautorizados pela
folia das ruas em becos sem saída nem
salvação tropicaliente.
Metamorfoses do GILuminoso deflorando
recinfernálias. Do mangue beat ao SOM
ao redor da RURAL de Roger. ARrebatando.
Dispensemos a TRANSPARÊNCIA no fervor
da politicidade. Em câmeras tatuadas.
Vamos continuar apostando na nudez foliã
de nossos corações infantis carnavalizando
príncipes e precipícios.
Recife, fevereiro de 2014.

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