GRUPO ELEANOR



CANTIGAS DO SERTÃO PARA VOAR,NOVO ESPETÁCULO LÍTERO-MUSICAL,ESTARÁ SE APRESENTANDO EM CRUZEIRO DO NORDESTE E PERNAMBUQUINHO E EM ARCOVERDE NA ESCOLA EDSON REGIS,NOS DIAS 17 ,18 E 19 DE MARÇO,COM A PARTICIPAÇÃO DE:
JOSIENE LIRA; KALU VITAL; ERIVALDO KHONDA; RÔMULO CAMPOS; JESSICA LINS
DIREÇÃO: FLÁVIO MAGALHÃES

A MACAXEIRA DO VELHINHO,mais uma vez saiu animando o Carnaval de Sertânia, pelo quinto ano Consecutivo,idealizado pelo Professor Adelmo de Assis, mais conhecido como o TIO, A Macaxeira do Velhinho, este ano teve as participações  especiais de Pedro do Arouche e Betão de Água Branca, e os alunos e Professores da Escola Técnica Estadual Arlindo Ferreira dos Santos (ETE).

A MACAXEIRA DO VELHINHO ANO V

Tomie Ohtake (IN MEMORIAN)

       O Brasil perdeu, nesta quinta-feira (12/02/15), um grande nome da arte. Tomie Ohtake morreu aos 101 anos, deixando um legado de monumentos e esculturas por várias cidades de nosso país. Na galeria acima, você aproveita para conhecer um pouco mais da obra da artista e saber se alguma delas esteve sempre debaixo do seu nariz, e você nem sabia. Quer forma melhor de homenagear uma pessoa que embelezou nossa terra?
Sua obra como essencialmente ocidental, embora seu traço revele forte influência da cultura japonesa.
      Nasce em Kioto, onde estuda e vive até os 24 anos. Vem como Tomie Nakakubo ao Brasil, para visitar um irmão, mas o início da guerra sino-japonesa impede seu retorno ao Japão.
Decide fixar-se em São Paulo e logo depois se casa com um engenheiro agrônomo, de quem adquire o sobrenome Ohtake. Passa a juventude como dona de casa e somente em 1952 começa a se interessar por pintura. Faz aulas com o artista japonês Keisuke Sugano e participa de exposições coletivas a partir desse ano. Ganha vários prêmios na década de 60 e de 70, entre eles o Prêmio Nacional de Pintura (1965) e o Prêmio Museu de Arte Moderna de São Paulo (1979).
Tomie Ohtake
Na década de 80 cria obras de arte para áreas públicas, como o painel para a fachada lateral do Edifício Santa Mônica, em São Paulo (1984), a estátua Estrela, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro (1985), e a escultura comemorativa do 80° aniversário da imigração japonesa, em São Paulo (1988). Em 1993 comemora 80 anos com uma exposição que circula por dez cidades brasileiras, e também pelos Estados Unidos e países da América Latina e da Europa.
Flávio Magalhães
Editor

A luz silenciosa da poesia


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Nesta sexta-feira 13 que abre o carnaval (dá para imaginar o inferno astral do Brasil nesta mistura de folia da carne com angústia da superstição para o espírito?), lhe encaminho o magnífico trabalho visual de Cláudia Cordeiro com a foto de Isabel no dia em que a conheci diante do último poema que lhe fiz.  E abaixo texto que preparei para servir de prefácio ao livro Dançar com facas, coletânea dos últimos poemas de Hildeberto Barbosa Filho, poeta de escol e crítico de responsa. E aí vão:A luz silenciosa da poesia. José Nêumanne.
       Poesia é discurso, mas não é retórica. Retórica é para oradores, tribunos, comunicadores. A oratória também é uma arte, a arte de confeitar bolos. Mas a poesia, mesmo a discursiva, é o método de descarnar o verbo, como no açougue o marchante desossa a carne de um animal pendurada no gancho. A palavra se introduz no verso e, depois, vai sendo exposta à deterioração do tempo, como um trapo secando num varal. Poesia nem sempre é só síntese, mas pode ser tratada como um pano molhado espremido até secar na pia da cozinha. Pois, enquanto a oralidade se exibe como num espetáculo de pirotecnia, a mancha gráfica no papel funciona como uma marca registrada, um desenho no qual os espaços vazios expressam o silêncio no branco que se contrapõe à sombra do tipo gráfico. Nem tudo se encerra nesta obviedade acima descrita. Primeiro, porque nem toda poética é gráfica nem sequer escrita. Os repentistas do sertão de minha infância, por exemplo, são oradores com seus mantras com modos, ritmo, métrica e rimas. Se alguém tem a pretensão de considerar a cantoria de viola como um gênero menor está incorrendo não em preconceito, mas em mera ignorância. Manuel Bandeira, um dos maiores vates da literatura brasileira de todos os tempos, foi jurado de um torneio de menestréis sertanejos no teatro Santa Isabel, no Recife, e saiu de lá encantado com os cantadores, particularmente com os irmãos Patriota de São José do Egito, lá onde Lampião perdeu as botas. Depois da função, o bardo urbano se disse, em versos, convencido de que ele mesmo não era poeta, não. E completou justificando a súbita modéstia: “poeta é quem inventa / em boa improvisação, / como faz Dimas Batista / e Otacílio seu irmão; / como faz qualquer violeiro, / bom cantador do Sertão”. Manuéis Bandeiras à parte, a verdade, que vale para os irmãos Patriota, em particular o maior de todos, Lourival, o Louro do Pajeú, é uma só: a poesia é múltipla. Ela se origina dos metros longos da tradição oral grega, reunida em torno de um mito chamado Homero, e se estende pelo tempo afora na épica de Virgílio em latim e dos criadores de idiomas - Dante Alighieri, na Toscana; e o luso Luís de Camões, que canonizou nosso galaico-português. Os decassílabos dos martelos agalopados permitem o truque mnemônico da repetição da invenção improvisada pelos tempos afora, tempos sem gravador e antes da disseminação de Gutenberg pelos sertões ermos. A reprodução elétrica (e agora eletrônica) dos sons levou a herança dos cantadores provençais ao universo da cibernética – das cantigas de amigo a Norbert Wiener. E o prelo velho de guerra permite consagrar os cordelistas de metro curto e os poetas de minuto, cujas estrofes salpicam em páginas quase vazias como bolhas de sabão em roupa lavada e estendida ao sol para quarar.
       Hildeberto Barbosa Filho, meu colega no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, ele egresso de Aroeiras, eu, de Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, ele, irmão de Dudezão, forrozeiro de escol, eu, conterrâneo de Ciro de Uiraúna, o maior xilagravador do Brasil, é poeta para todo metro. Foi discursivo em Ira de viver, em que abordou o soneto, técnica elaborada, erudita, exigente e árdua, com maestria, e em O livro da agonia. E minimalista bem-sucedido em São teus estes boleros. Em Dançar com facas, o poeta de Aroeiras volta ao território do minimalismo com uma diferença. No livro anterior, ele abordou o fazer poético à semelhança de Philip Glass, o autor das canções minimalistas. Agora ele burila não mais o verso curto, mas praticamente a palavra solta no branco do papel, como John Cage fez com os sons, valorizando o máximo o silêncio, como se quisesse nos mostrar o óbvio que ninguém vê/ouve: o branco/silêncio interfere no preto/som, entrando na composição como parte dela. Um exemplo deste absoluto poder de síntese, no qual a alusão erudita dá sentido não enunciado ao que é enunciado é Sêneca: “Coisas perdidas. / Coisas vividas / Coisas mortas”. Outro ainda mais exemplar, por enunciar o que não é para enunciar, é Poesia: “Luz / e silêncio”. Este último, no papel, é pugilismo puro. E do bom! A poética, digamos, mínima não se isenta da emoção, ao contrário do que imaginam os desavisados. Poucos poemas líricos em língua portuguesa têm a força que o modernista paulista Oswald de Andrade deu a seu magnífico Ditirambo: “Meu amor me ensinou a ser simples / como um largo de igreja / onde não há nem um sino / nem um lápis / nem uma sensualidade...” Lenilde de Freitas, de origem recifense, mas nascida e criada na mesma Campina Grande onde Hildeberto e eu estudamos na pré-adolescência e que ganhou uma Bienal Nestlé de Poesia na qual fui um dos jurados, tem enriquecido o florilégio dos brevíssimos cânticos do amor perene com obras notáveis. Eis uma delas, A paixão desmedida: “De tanto te desmontar / te reinvento / com pensamento macio. / Eis-me outra vez / no limiar de tua face. / Por precaução / Conto um-dois-três: / eu mesmo afio teu esporão”.
       Hildeberto foi neste rastro em Confissão: “Nada desejo para mim, / exceto a tristeza sem cor / dos olhos teus, / inclassificável beleza / que me enlouqueceu”. Há no poema, como no de Oswald, todo o lirismo do mundo, mas pieguice, zero. Ao contrário, o lírico minimalista Hildeberto é de um antilirismo implacável, a exemplo de  Lenilde e no rastro do melhor da produção de Roberto Carlos, antes de se deixar sufocar com açúcar: “Se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama...” Do século XX para cá, desde Oswald, a poesia brasileira tem sido fértil em minimalismo e antilirismo. A paulista e contemporânea Eunice Arruda nos sapeca em seu Propósito uma lição de como dizer tudo falando quase nada: “Viver pouco / mas viver muito/ Ser todo o pensamento / Toda a esperança / Toda a alegria / ou angústia - mas ser // Nunca morrer / enquanto viver”. Sem levar em consideração o fato de que este fecho é de matar de inveja qualquer poeta em atividade, convém reparar no uso das maiúsculas ao abrir versos que exaltam a alegria de viver, resumindo o fardo do penar a um verso aberto com letra minúscula. O poema é realista, mas esperançoso. Nesta coletânea, que tenho a honra de apresentar, Hildeberto refaz o poema de Eunice pelo avesso em Suicida: “Não sou suicida, / mas quantas vezes pensei / em sair dessa para outra, / melhor. // O diabo é que a vida / é um grude e nos prende / à sua casca mágica, / pesar dos remorsos, horrores, / carências...” A palavra solta do fecho transmite uma sensação de abandono de quase levar às lágrimas, não é? Em Velhice esta carência abriga um pessimismo amargo se espalhando na folha como bile: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui”. A carência vira solidão. No caso, como se dá a perceber, se trata de um poema que, como poucos neste livro, pode (e até deve) ser lido em voz alta. Ou seja: estamos mais a ouvir pingos de Glass do que a (não) escutar o longo silêncio agoniado de Cage. Mais adiante, Hildeberto premia seu leitor com uma visão cáustica de quem não se dispõe a perdoar: “No fim da cidade, / um loteamento de velhos // Desertos na pele, / crateras no sangue. // Velhas com conhaque / na alma, lúcidos, sem horizonte” (Horizonte, um título que resume o poema). Uma imagem como esta “conhaque na alma” paga qualquer poema. Sem falar no truque da\ quebra da imagem que força o pobre leitor a bisar a leitura para não perder o inusitado da metáfora. Poucos poetas tiveram a exatidão enxuta e a piada pronta como o caipira apaulistanado José Paulo Paes com suas peças que mais podem ser chamadas de epigramas pós-concretos (ou seriam pós-modernos?). O exemplo mais radical desta faceta dele está em Poética: “conciso?   com ciso / prolixo?   pro lixo”. Se algum leitor muito avisado conseguir um manifesto mais curto, mais bruto e mais preciso do que este, por favor, me avise e mo mande. Um poema de Hildeberto, com o mesmo título do de Paes, acrescido de uma ordem de descendência nobiliárquica, o Poética IV troca a condenação feroz pela autocrítica rabugenta: “Desgosto / de muitos poemas / que fiz... // Este nada me diz / Aquele é pura mentira. / Outros, falsos brilhantes / que passam por lira” Hildeberto Barbosa Filho amadurece e endurece recorrendo às raízes. Sua poesia de agora espelha o sol inclemente do Cariri que parece queimar mais plantas que nascem de pedras por acaso do que participar da urdidura da clorofila. À medida que o tempo passa, ele descobre na aspereza cinzenta de sua paisagem de origem, além da feiúra aparente, uma beleza secreta, para iniciados, que ele passou a apreciar assim como também passou a celebrar com poucas vezes as profundezas do silêncio de estepes sem vento. É o que nos expõe em Legado: “À noite se segue o dia / como as águas abrigam / calor e silêncio. // Resta ao homem / a pluma da linguagem, / ásperos navios de fogo / que iluminam os vazios”. Aqui o metro se alonga além do normal e isso se torna perceptível na leitura linear dos versos quebrados pelo sinal gráfico que reproduz a barra (/). É como se a forma desdissesse o conteúdo e a respiração cortasse o soluço. O luxo do verso abundante, quase um discurso a interromper a matraca, reforça pelo avesso a pregação permanente da ideologia da escassez, que nos leva na obra poética dele à exposição da carência como forma de verter até a última gota do vinho amargo no cálice da paixão. É como ele mesmo diz em Sentidos: “Apenas / vejo o que ouço. // Toco / o que cheiro // e saboreio as palavras”.
        Este livro é para ser lido vagarosamente. Quando o leitor acaba, tem a sensação esquisita de que demorou pouco. Afinal, foi tudo muito rápido. Mas aprenda que brevidade nada tem que ver com facilidade. Ela também se conquista com a experiência. Experimente reler e, depois, repita. Faça-o à exaustão. Aprenderá, como eu, que só então sentirá o peso de cada palavra e a verá gotejar na secura alva da página impressa.
José Nêumanne, poeta, jornalista e escritor, é autor de Solos do silêncio – poesia reunida.
(Prefácio do livro dançar com facas, poemas de Hildeberto Barbosa Filho, no prelo)

O ministro vermelho e o banqueiro mau

Um governo que cumpre o seu programa eleitoral, um governo que tem o apoio do povo, é algo de inédito na Europa. De tal forma que parece irreal, um conto de crianças. Mas este conto é a nossa vida.

Era uma vez um ministro vermelho que ia visitar a sua avozinha, a Europa. Pelo caminho, encontrou um banqueiro mau, que lhe tentou roubar a lancheira. O ministro recusou e o banqueiro ameaçou que iria destruir toda a economia e toda a gente ficaria na pobreza. O ministro de novo recusou e acelerou o passo em direção à casa da avozinha. Ao chegar a casa, contudo, notou algo de estranho. A avozinha tratava-o mal, falava de forma arrogante e ameaçava-o com castigos diversos caso não desse a lancheira ao pobre banqueiro. O ministro, perspicaz como sempre, percebeu que o banqueiro se tinha disfarçado de avozinha e que a velha Europa estava enclausurada algures. O fim desta estória ainda está por escrever. Os que defendem o banqueiro mau, como o nosso Primeiro-Ministro, dizem que tudo não passa de um conto de crianças, como se houvesse algo de errado com ser criança, e que é preciso entregar a lancheira ao banqueiro. Os que defendem o ministro vermelho, como o seu assessor, dizem que os contos de crianças acabam sempre com uma mensagem de esperança, pelo que a lancheira será entregue à Europa. A estória ilustra a escolha com que o povo grego se deparou nas eleições. Escolheu não entregar a sua vida ao grande capital e a sua soberania ao governo alemão. Escolheu mal, dizem os governos neoliberais da Europa. Escolheu bem, dizem os 99% que não são capitalistas nem governantes neoliberais. Entretanto, a estória já teve um final feliz para muita gente. Para as empregadas de limpeza que foram despedidas do Ministério das Finanças e agora foram recontratadas pelo ministro vermelho, que no mesmo momento despediu os assessores contratados pelos ladrões que governavam a Grécia. Para as famílias que viviam sem eletricidade por serem demasiado pobres para pagar a conta e que agora podem cozinhar e ter luz à noite. Para as crianças de emigrantes, que agora veem a sua nacionalidade grega reconhecida. Para todo o povo grego, que finalmente tem um governo seu, um governo que não se verga perante os governadores coloniais da “troika”. Um governo que cumpre o seu programa eleitoral, um governo que tem o apoio do povo, é algo de inédito na Europa. De tal forma que parece irreal, um conto de crianças. Mas este conto é a nossa vida. Não será um qualquer príncipe encantado ou uma fada a salvar-nos, somos nós que temos de escrever o final da estória. Pensemos na avozinha, coitada, que merece melhor que isto.
9 de Fevereiro, 2015 - 00:25h     

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X BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE PERNAMBUCO


O Sertaniense, Marcelino Freire, será um dos homenageados da próxima edição da Bienal do Livro - Pernambuco! Ele venceu o Prêmio Machado de Assis de Melhor Romance da Biblioteca Nacional, por "Nossos Ossos" (Editora Record, 2013) no final do ano passado.

Seus outros livros publicados são:
EraOdito (aforismos, 2ª edição, 2002)
Angu de Sangue (contos, Ateliê Editorial, 2000)
BaléRalé (contos, Ateliê Editorial, 2003)
Contos Negreiros (contos, Editora Record, 2005)
Rasif - Mar que Arrebenta (contos, Editora Edith, 2008)
Amar é crime (contos, Editora Edith, 2010)

JE NE SUIS PAS CHARLIE...


Leonardo Boff

Je ne suis pas Charlie, eu não sou Charlie

As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são perigosas e de péssimo gosto.



Je ne suis pas Charlie
Em primeiro lugar, eu condeno os atentados do dia do 7 de janeiro. Apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou um cara pacífico. A última vez que me envolvi em uma briga foi aos 13 anos (e apanhei feito um bicho). Não acho que a violência seja a melhor solução para nada. Um dos meus lemas é a frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobramos sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro. Ninguém merece. A morte é a sentença final, não permite que o sujeito evolua, mude. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem.
 
Após o atentado, milhares de pessoas se levantaram no mundo todo para protestar contra os atentados. Eu também fiquei assustado, e comovido, com isso tudo. Na internet, surgiu o refrão para essas manifestações: Je Suis Charlie. E aí a coisa começou a me incomodar.
 
A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970 e identificada com a esquerda pós-68. Não vou falar de toda a trajetória do semanário. Basta dizer que é mais ou menos o que foi o nosso Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita européia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…
 
O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet – críticas que foram resolvidas com a saída dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã – ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011.
 
Uma pausa para o contexto. A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”. Após os atentados do World TRADE Center, a situação piorou. Já ouvi de pessoas que saíram de um restaurante “com medo de atentado” só porque um árabe entrou. Lembro de ter lido uma pesquisa feita há alguns anos (desculpem, não consegui achar a fonte) em que 20 currículos iguais eram distribuídos por empresas francesas. Eles eram praticamente iguais. A única diferença era o nome dos candidatos. Dez eram de homens com sobrenomes franceses, ou outros dez eram de homens com sobrenomes árabes. O currículo do francês teve mais que o dobro de contatos positivos do que os do candidato árabe. Isso foi há alguns anos. Antes da Frente Nacional, partido de ultra-direita de Marine Le Pen, conquistar 24 cadeiras no parlamento europeu…
 
De volta à Charlie Hebdo: Ontém vi Ziraldo chamando os cartunistas mortos de “heróis”. O Diário do Centro do Mundo (DCM) os chamou de“gigantes do humor politicamente incorreto”. No Twitter, muitos chamaram de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.
 
O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. (Isso gera situações interessantes, como o filme A Mensagem – Ar Risalah, de 1976 – que conta a história do profeta sem desrespeitar esse dogma – as soluções encontradas são geniais!). Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a estátua de Nossa Senhora para atacar os católicos. O Charlie Hebdo publicou a seguinte charge:
 
Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. Ok, o catolicismo foi banalizado. Mas isso aconteceu de dentro pra fora. Não nos foi imposto externamente. Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses – famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerâmcia (ver Caso Dreyfus) – deram ganho de causa para a revista. Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã.
 
Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência (quantos trocadilhos com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…
 
E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Se a piada é preconceituosa, ela transmite o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas.
 
No artigo do Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira diz: “Existem dois tipos de humor politicamente incorreto. Um é destemido, porque enfrenta perigos reais. O outro é covarde, porque pisa nos fracos. Os cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro grupo. Humoristas como Danilo Gentili e derivados estão no segundo.” Errado. Bater na população islâmica da França é covarde. É bater no mais fraco.
 
Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus. Isso me lembra o já citado gênio do humor (sqn) Danilo Gentilli, que dizia ser alvo de racismo ao ser chamado de Palmito (por ser alto e branco). Isso é canalha. Em nossa sociedade, ser alto e branco não é visto como ofensa, pelo contrário. E – mesmo que isso fosse racismo – isso não daria direito a ele de ser racista com os outros. O fato do Charlie Hebdo desrespeitar outras religiões não é atenuante, é agravante. Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
 
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.
 
“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados – como o racismo ou a homofobia – isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim.
 
Por coincidência, um dos assuntos mais comentados do dia 6 de janeiro – véspera dos atentados – foi a declaração do comediante Renato Aragão à revista Playboy. Ao falar das piadas preconceituosas dos anos 70 e 80, Didi disse: “Mas, naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam.”. Errado. Muitos se ofendiam. Eles só não tinham meios de manifestar o descontentamento. Naquela época, tão cheia de censuras absurdas, essa seria uma censura positiva. Se alguém tivesse dado esse toque nOs Trapalhões lá atrás, talvez não teríamos a minha geração achando normal fazer piada com negros e gays. Perderíamos algumas risadas? Talvez (duvido, os caras não precisavam disso para serem engraçados). Mas se esse fosse o preço para se ter uma sociedade menos racista e homofóbica, eu escolheria sem dó. Renato Aragão parece ter entendido isso.
 
Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis.
 
Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada” (grifo meu). Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados – um deles com granadas! – nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos” – e ela sabe disso).
 
Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro de ontem, eu não sou Charlie. No twitter, um movimento – muito menor do que o #JeSuisCharlie – começa a surgir. Ele fala do policial, muçulmano, que morreu defendendo a “liberdade de expressão” para os cartunistas do Charlie Hebdo ofenderem-no. Ele representa a enorme maioria da comunidade islâmica, que mesmo sofrendo ataques dos cartunistas franceses, mesmo sofrendo o ódio diário dos xenófobos e islamófobos, repudiaram o ataque. Je ne suis pas Charlie. Je suis Ahmed.

CARNAVAL 2015

 
Participem do bloco "VELHA FOLIA", o bloco carnavalesco da rua velha, comprem suas camisas e venham participar. Responsável, nosso amigo Tota Gois. Vamos participar do Carnaval da Rua Velha, a rua mais foliona de Sertânia. PARTICIPEM!!!

PARADOXOS pelo ANO INTEIRO

Até quando suportaremos as atrocidades
de um janeiro derradeiro? Sem rimas.
O Prof. de Astrologia Eduardo Maia
investiu em poema talvez minimalista
vindo desafiar  o coro dos contentes
profissionais da literatura por vir.
Eis o texto a ser lido em voz alta:
- “A questão é: Ocupe a Utopia.
Desocupe a Apatia./Preocupe a Entropia.
e Culpe a Idolatria./Pia!...”
Bem dentro das rimas e risadas em busca
de uma TERA-PIA entre ocultações.
Se a “questão” assinalada nos remete a
mais uma dúvida permanente, nada piamente,
nosso roteiro atravessa problemáticas.
Utopia enquanto missão, predestinação ou
sempre pelo desejo de transgressão?
Que as rimas sonoras em ÃO conduzam
a novas perturbações. Ou novelhas?
Pensar a Utopia Concreta, segundo Paulo
Freire, através dos letramentos sóciohistóricos
em círculos de cultura, talvez tarefa
impensável no país dos mal feitos.
Escândalos além das ficções eleitoreiras
e cotidianas fricções TRANSpartidárias.
Não basta desocupar nossa APATIA entre
redes, passeatas, corações valentes e
saudosos carnavais. Astromancia?
Signos em jornalismo facilitador.
Tudo pode tornar-se desordem redundante
das ENTROPIAS pelo ilimitado WEBsite.
Por que culpar nossa planetária IDOLATRIA
entre fervores governamentais?
 
Jomard Muniz de Britto, jmb à deriva. 

Livro sobre pensamento social do Papa Francisco‏

CIdade do VATICANO

Nós antecipamos um trecho do “Papa Francisco. Esta economia mata”, livro sobre o ensinam
en
​​
to social de Bergoglio, escrito por Andrea Tornielli, coordenador de “Vatican Insider”, e Giacomo Galeazzi, vaticanólogo de “La Stampa”. O volume reconhe e analisa os discursos, os documentos e as intervenções de Francisco acerca de pobreza, imigração, justiça social, salvaguarda da criação. E põe em confronto especialistas de economia, finança, e doutrina social da Igreja – entre os quais o professor Stefano Zamagni e,o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi – relatando inclusive as reações suscitadas por certas tomadas de posições do Pontífice. O livro termina com uma entrevista concedida por Francisco aos autores, no início de outubro de 2014.

«Marxista», «comunista» e «pauperista»: as palavras de Francisco
sobre pobreza e sobre justiça social, suas frequentes chamadas à atenção para com os necessitados, lhe renderam críticas e até acusações por vezes expressas com dureza e sarcasmo. Como é que vive este Papa Bergoglio? Por que o tema da pobreza tem sido tão presente em seu magistério?

Santidade, o capitalismo, tal como vivemos nas últimas décadas, é, ao seu ver, é um sistema de algum modo irreversível?

“Não saberia como responder a esta pergunta. Reconheço que a globalização ajudou muitas pessoas a saírem da pobreza, mas condenou muitas outras a morrerem de fome. É verdade que, em termos absolutos, aumentou a riqueza mundial, mas também cresceram as desigualdades e foram geradas novas formas de pobreza. O que observo é que este sistema se mantém com a cultura do descarte, sobre a qual já felei várias vezes. Há uma política, uma sociologia e até uma atitude do descarte. Quando no centro do sistema já não se encontra o homem, mas o dinheiro, quando o dinheiro se torna um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, antes dominado  por profundos desequilíbrios. E assim “se descarta” o que não serve a esta lógica: é tal postura que descarta as crianças e os anciãos, e que também castiga também os jovens. Fiquei impressionado ao saber que nos países desenvolvidos há muitos milhões de jovens com menos de 25 anos, sem trabalho. Então, chamei os jovens  de “nem
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nem”, porque nem estudam nem trabalham. Não estudam porque não têm possibilidade de estudar, não trabalham porque falta trabalho. Mas também gostaria de lembrar aquela cultura do descarte que leva a rejeitar as crianças, inclusive por meio do aborto. Impactam-me os índices de natalidade tão baixos, aqui na Itália: é assim que se perde a ligação com o futuro. Como a cultura do descarte leva à eutanásia dissimulada dos anciãos, que vivem abandonados. Em vez de serem considerados como a nossa memória, o elo com o nosso passado e uma fonte de sabedoria para o presente. Por vezes, me pergunto: qual será o próximo descarte? Temos que parar com isso em tempo. Vamos parar com isso, por favor! Portanto, para tentar responder à pergunta, diria isto: não consideremos esse estado de coisas como irreversível, não nos conformemos. Vamos buscar construir uma sociedade e uma economia em que o homem e o seu bem, e não o dinheiro, estejam no centro.”

Uma mudança, uma maior atenção à justiça social pode dar-se graças a mais ética na economia ou é necessário também prever mudanças estruturais no sistema?

“Primeiro, vale lembrar que há necessidade ética na economia, e que também há necessidade de ética na política. Muitas vezes, vários chefes de Estado e líderes políticos que pude encontrar depois de minha eleição como biso de Roma, me falaram isto. Disseram: os senhores, líderes religiosos, devem ajudar-nos, dando-nos indicações éticas. Se o pastor pode fazer seus apelos, mas estou convencido de que nos é necessário, como recordava Bento XVI, em sua encíclica “Caritas in veritate”, que homens e mulheres ergam seus braços a Deus para rogar-
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he, cônscios de que o amor e a partilha de que deriva o autêntico desenvolvimento, não são produtos de nossas mãos, mas um dom a ser pedido. Ao mesmo tempo, estou convencido de que seja necessário que esses homens e essas mulheres se empenhem, em todos os níveis, na sociedade, na política, nas instituições e na economia, pondo no centro o Bem Comum. Não podemos mais esperar que se resolvam as causas estruturais da pobreza para livrar nossas sociedades  da doença que só pode levar a novas crises. O mercado e a especulação financeira não podem gozar de autonomia absoluta. Sem uma solução para os problemas dos pobres, não resolveremos os problemas do mundo. / Nesse sentido / Servem programas, mecanismos e processos voltados para uma melhor distribuição dos recursos, à criação de trabaho, à promoção integral de quem vive excluído.”

Por que as palavras fortes e proféticas de Pio XI na encíclica “Quadragesimo Anno” contra o imperialismo internacional do dinheiro hoje soa para muitos – inclusive católicos – exageradas e radicais?

“Pio XI parece exagerado para os que se sentem impactados com suas palavras, vivamente atingidos por suas denúncias proféticas. Mas o Papa não era exagerado, disse a verdade depois da crise econômico-financeira de 1929, e como bom alpinista via como as as coisas estavam, sabia enxergar longe. Temo que os exagerados sejam, antes, os que se sentem alcançados pelos pelos reclamos  de Pio XI.

Ainda continuam válidas as páginas da “Populorum Progressio”, nas quais se diz que a propriedade privada não é um direito absoluto, mas está subordinado ao Bem Comum, e aquelas do catecismo de São Pio X que elenca entre os pecados que clamam vingança ante Deus, oprimir os pobres e recusar o justo salário dos operários?

“Sáo afirmações, não apenas  ainda válidas, mas quanto mais o tempo passa, mais percebo que estão comprovadas pela experiência.”

Bateram muito contra suas palavras sobre os pobres
 “carne de Cristo”. Sente-se incomodado pela acusação de “pauperista”?

“Antes que surgisse Francisco de Assis, havia os “pauperistas”, na Idade Média. Havia muitas correntes pauperísticas. O pauperismo é uma caricatura do Evangelho e da própria pobreza. São Francisco, por outro lado, nos ajudou a descobrir o elo profundo entre a pobreza e o caminho evangélico. Jesus afirma que não se pode servir a dois senhores: a Deus e à riqueza. É pauperismo? Jesus nos diz qual é o “protocolo” com base no qual seremos julgados, é o que lemos no capítulo 25 do Evangelho de Mateus: tive fome, tive sede, estive preso, estive enfermo, estive nu, e me ajudastes, me vestistes, me visitastes, estais presos, cuidaste de mim. Toda vez que fazemos isto a um irmão nosso, o fazemos a Jesus. Cuidar do nosso próximo: de quem é pobre, de quem sofre no corpo, no espírito, de quem está em necessidade. A pobreza toma distância da idolatria, do sentir-nos auto-suficientes. Zaqueu, depois que cruzou o olhar misericordioso de Jesus, deu a metade de seus bens aos pobres. A mensagem do Evangelho volta-se para todos, o Evangelho não condena os ricos, mas a idolatria da riqueza, a idolatria que torna insensíveis ao clamor do pobre. Jesus disse que, antes de apresentar a nossa oferta diante do altar, devemos reconciliar-nos com o nosso irmão para ficarmos em paz com Ele. Creio que, por analogia, podemos estender tal critério também ao estar em paz com esses irmãos pobres.

O Sr. sublinhou a continuidade com a tradição da Igreja, nesta atenção aos pobres. Pode dar algum exemplo, nesse sentido?

“Um mês antes da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, disse o Papa João XXIII: “A Igreja se apresenta como é e como deseja se, como a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”. Nos anos seguintes, a opção preferencial pelos pobres entrou nos documentos do magistério. Alguém poderia pensar tratar-se de uma novidade, enquanto, ao contrário, trata-se de uma atenção que tem sua origem no Evangelho, e se acha documentada já nos primeiros séculos do Cristianismo. Se eu repetisse alguns brados das homilias dos primeiros Padres da Igreja, do segundo ou do terceiro século, sobre como devem ser tratados os pobres, haveria quem me acusasse de que a minha é uma “homilia marxista”: “Não é teu o donativo que ofereces ao pobre, tu não fazes senão devolver-lhe aquilo que lhe pertence. Porque o que é dado em comum para o uso de todos é o que reservaste para ti. A terra é dada para todos, e não apenas aos ricos.” São palavras de Santo Ambrósio, que serviram a Paulo VI para afirmar, na “Populorum Progressio”, que a propriedade privada não constitui para alguém um direito incondicional e absoluto, e que ninguém está autorizado a destinar ao seu uso exclusivo o que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. São João Crisóstomo afirmava: “Não partilhar os próprios bens com os pobres significa roubá-los e privá-los da vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles”. (...) Como se pode ver, esta atenção aos pobres está no Evangelho e está na tradição da Igreja, não é uma invenção do comunismo e não deve ser ideologizada, como algumas vezes tem acontecido, no curso da história. Quando a Igreja convida a superar o que tenho chamado de globalização da indiferença”, está longe de qualquer interesse político e de qualquer ideologia: movida tão só pelas palavras de Jesus, deseja oferecer a sua contribuição para a construção de um mundo onde se tenha guarda um pelo outro e onde se cuide um do outro.”


ANDREA TORNIELLI GIACOMO GALEAZZI.

Órfãos de pais vivos e crime



A proporção de famílias incompletas, sem a presença paterna, é o melhor preditor do nível de crimes violentos numa comunidade (ou bairro, município, área metropolitana).[1] Tanto maior o número de famílias sem pais ou mães presentes e/ou atuantes, tanto mais elevado o nível de crimes violentos.
Por que?
R. L. Maginnis enumera alguns caminhos através dos quais os pais presentes contribuem para prevenir e controlar a criminalidade dos filhos e filhas[2]:
·       A família completa tem maior estabilidade econômica, menos crises dessa ordem, e um nível de recursos materiais maior;
·       Os pais proporcionam um exemplo, na maioria dos casos com saldo positivo, mas que pode ser ruim, para os meninos. Não tendo o exemplo em casa, o jovem adolescente os buscará em outros lugares, o que aumenta o risco de um seguir um exemplo criminal, de ter vergonha de ser um trouxa, um Mané;
·       Há mais segurança para a família, financeira, emocional e de outros tipos;
·       A presença paterna - particularmente dos que contribuem financeiramente, participam das tarefas domésticas e dedicam carinho e tempo aos filhos e filhas - reduz o estresse das mães.
A presença paterna protetora e carinhosa é essencial, particularmente no que concerne os jovens adolescentes, que são a combinação entre sexo e coorte etária com maior propensão ao crime.
    Quais os efeitos observáveis e mensuráveis, comprovados por pesquisas, que não simples afirmações vazias, do fato de uma família ser incompleta sobre seus filhos e filhas?
·       Maior risco de usar drogas;
·       Maior risco de pertencer a gangues;
·       Maior risco de ser expulso da escola;
·       Maior risco de ser internado numa instituição penitenciária para menores, estilo Degase;
·       Maior risco de se tornarem assassinos já na adolescência;
·       E vários outros comportamentos indesejáveis.

As famílias incompletas fazem com que os filhos e filhas passem menos tempo com uma pessoa que se orienta para suas necessidades, que os acompanha e aconselha. “Sobra” para a família mais ampla, para a vizinhança, para e a escola e para a religião - quando ela existe na vida da família e dos adolescentes. As quatro instituições estão em crise no Brasil, o que reduz a sua influência e o número de crianças e adolescentes que conseguem ajudar.
Nos Estados Unidos, em 1993, foi realizado um survey chamado "Violence in America's Public Schools", a Violência nas Escolas Públicas Americanas. Alguns resultados: 71% dos professores e 90% dos policiais achavam que a falta de supervisão dos pais era um fator muito importante, que contribuía para a violência nas escolas. Menos pais, mais crimes. Essa pesquisa também perguntou qual a opinião das crianças e adolescentes sobre a mesma questão. Sessenta e um por cento dos alunos das escolas primárias e 76% dos alunos das escolas secundárias estavam de acordo com essa opinião.
Essa é apenas uma de muitas pesquisas feitas nos Estados Unidos que apontam na mesma direção. Não é uma “coisa americana”. Pesquisas em vários outros países chegaram a conclusões semelhantes.
Um dos pontos mais importantes, na minha opinião, é a transmissão de valores éticos e cívicos, difíceis de encontrar na rua. Pior: a presença de pai e/ou mãe com frequência não é suficiente porque eles seguem os ditames da Lei de Gerson, de “se dar bem”. Há mais uma agravante, um parâmetro mais amplo, o crescimento do consumismo e a crescente identificação da felicidade com o uso e propriedade de bens materiais, a felicidade através das coisas e não através das pessoas, nem através da alma.
Podemos, até certo ponto, reduzir a criminalidade fortalecendo as instituições protetoras: família, escola, religião sendo as principais. É muito mais barato e evita o crime, o sangue, a dor. A punição e o isolamento podem ser necessários, mas são muito menos desejáveis e eficazes.
Mas a grande reforma, muito mais ampla, de que o Brasil precisa é de valores, é a redescoberta da ética, a substituição de coisas por gente, da cobiça pelo amor.

GLÁUCIO SOARES      IESP-UERJ

[1] Vários artigos, inclusive alguns publicados no The Journal of Research in Crime and Delinquency, chegaram a essa conclusão.

[2] “Children from single-parent families are more likely to have behavioral problems because they tend to lack economic security and adequate time with parentes”. Single-Parent Families Cause Juvenile Crime (From Juvenile Crime: Opposing Viewpoints, pgs. 62-66, 1997, A E Sadler, ed.

A POBREZA É FRUTO DAS RELAÇÕES ENTRE OS HOMENS

Faço minhas as palavras da professora Marilia Montenegro.
Assim, depois de uma formação não só voltada para uma perspectiva do mercado, mas, primeiramente, para uma construção de profissionais voltados à “excelência humana”, esperamos que muitos de vocês, queridos formando, possam prosseguir no chamado do Papa Francisco quando afirma que “A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo... Saiam de vocês mesmos, de todo fechamento para levar a luz e o amor do Evangelho a todos, até as extremas periferias da existência!... Não deixemos entrar em nosso coração a cultura do descartável”.
         E, aproveitando o alerta da cultura do descartável, gostaríamos de conversar com vocês sobre o “mito de Tântalo”.
         Vivemos hoje no mundo da agonia do consumo, todos nós podemos desejar ser consumidores, os bens de consumos são expostos a todos da mesma forma, mas só um número reduzido de pessoas podem realmente SER consumidores. Muitos vivem a agonia de Tântalo. A mitologia grega nos conta que Tântalo foi punido por ter praticado um crime (os narradores divergem quanto à natureza de tal crime, mas são acordes que foi praticado contra os deuses). Sua punição perpétua foi ficar mergulhado até o pescoço em um lago, mas quando abaixava a cabeça para saciar sua sede a água desaparecia. Já sobre sua cabeça estava pendurado um belo ramo de frutas, mas quando ele estendia a mão tentando saciar sua fome um repentino golpe de vento carregava o alimento para longe. É fácil notar que, literalmente, tantalizados estão a grande maioria dos habitantes do planeta, que conseguem através dos meios de comunicação, das vitrines das grandes lojas observar todos os bens de consumo objeto dos seus desejos, passados pelo sistema como essenciais para ser alguém, mas eles são todos inatingíveis.
         No mito de tântalo, como disse, os narradores divergem quanto ao crime cometido. Já com relação aos milhões de habitantes tantalizados atualmente essa divergência não existe, pois o crime cometido por cada um deles é: ser pobre, é ser ninguém, é ser filho de ninguém, é ser dono do nada.
         Por outro lado, certas condutas, praticadas por quem é alguém e dono de algo não são percebidas pelo direito como crimes, como bem coloca o sociólogo polonês Zigmund Bauman: “roubar os recursos de uma nação inteira é chamado promoção de livre comércio, roubar famílias e comunidades inteiras de seu meio de substância é chamado “enxugamento” ou simplesmente racionalização. Nenhum desses jamais foi incluído entre os atos criminosos passíveis de punição”.
         Enquanto isso, os “ninguém”, os filhos de ninguém, os donos do nada se espalham pelo mundo, pelo nosso país e pela nossa cidade.

Wellington Santana.
 
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