domingo, 31 de janeiro de 2016

ALVIN E HEIDI TOFFLER E A ACELERAÇÃO DAS MUDANÇAS

O desconforto causado pelo excesso de informações não é um fenômeno tão recente como se imagina. O casal Toffler chamava a atenção para ele em meados da década de 60, já alertando para seus perigos.

Alvin Toffler anda distante dos holofotes. As palavras do homem que nos anos 70 e 80 foi gurú de hackers em formação, de futuros publicitários, empresários e governantes, estão soterradas pela avalanche de supérfluos que sufoca tudo e todos. Mas Toffler foi um dos primeiros, ou talvez o primeiro, a chamar a atenção para os efeitos do excesso de informações e para a sensação de caos que hoje nos envolve.
Toffler previa e prevê o futuro. Então ele é astrólogo, cartomante, pai de santo, profeta? Bem... Não. Alvin Toffler nasceu em Nova York, em 1928. Cursou Letras na Universidade daquela cidade, onde conheceu sua esposa, a então estudante de Linguística Heidi Toffler. Juntos eles pesquisam e publicam, desde a década de 60, os resultados de seus estudos numa área que ficou conhecido como Futurologia, ou seja, a ciência que analisando o presente por diferentes perspectivas, identifica tendências de futuro.
O método de pesquisa dos Toffler envolve a análise científica de dados e combinação de informações de áreas distintas como a Economia, a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia, a Psicologia, entre outras. Entre os principais títulos publicados estão Choque do Futuro (1970), Aprendendo Para o Futuro (1974), A Terceira Onda (1980), A Empresa Flexível (1985), Powership, as Mudanças do Poder (1990), Riqueza Revolucionária (2006) e O Futuro do Capitalismo (2012). São seus temas frequentes a sociedade industrial, o avanço científico e tecnológico, a realidade virtual, a vida cotidiana e suas transformações, os nichos de mercado, a sociedade do conhecimento e a acelerações das mudanças.
Em Choque do Futuro (1970), os Toffler chamam a atenção para o ritmo crescente das mudanças e o impacto que viria a causar na sociedade, ou melhor, que já estava causando. Diz Alvin Toffler: “Em 1965, em um artigo na revista Horizons, cunhei a expressão choque do futuro, para descrever a esmagadora tensão e a desorientação a que induzimos os indivíduos quando os sujeitamos a um excesso de mudanças em muito pouco tempo”. Ele explica que tal choque surge da crescente defasagem entre o ritmo de mudanças percebidas no ambiente em que estamos inseridos e a capacidade humana de adaptação. É um fenômeno temporal que tem implicações psicológicas e que é causa de mal-estar, neurose coletiva, irracionalidade e violência. Seria o "choque do futuro" a explicação para tanto ódio que circula nas redes sociais, para a indiferença crescente que marca as relações humanas? Toffler descreve o quadro:
“Tire um indivíduo de sua própria cultura e coloque-o de repente num ambiente totalmente diferente do seu próprio, com um conjunto diverso de pistas para reagir – diferentes concepções de tempo, espaço, trabalho, amor, religião, sexo e tudo mais – e em seguida retire dele qualquer esperança de retornar a uma paisagem social mais familiar, e o deslocamento que ele sofrerá será, sem dúvida, muito grave. E mais, se essa nova cultura está, ela mesma, em constante torvelinho, e se – pior ainda – seus valores se encontram em incessante mudança, o tempo de desorientação será mais ainda intensificado. Recebendo um número muito reduzido de pistas sobre o tipo de comportamento que é racional debaixo de circunstâncias radicalmente novas, a vítima pode muito bem vir a se tornar um problema para si e para os outros. Agora imagine não apenas um indivíduo, mas toda uma sociedade, toda uma geração – incluindo seus membros mais fracos, menos inteligentes e mais irracionais – transportada repentinamente para esse mundo novo. O resultado é a sua desorientação em massa, choque do futuro em alta escala.”
Em outras palavras, todo espaço social é caracterizado por uma cultura que se transforma ao longo de um tempo histórico. O indivíduo é corpo biológico que se desenvolve em um determinado espaço social, assimilando sua cultura e se transformando biologicamente e psicologicamente à medida que a assimila. Assim, seus hábitos e seu modo de pensar estão em estreita relação com seu aprendizado. Para ele, o mundo faz sentido no interior dessa cultura que ressalta, ela mesma, o que é considerado como mais e ou como menos importante. Sair de um espaço social e chegar a outro implica deixar uma cultura e seus modos de vida para adentrar uma outra cultura, com outros modos de viver marcados por valores distintos. A adaptação exige tempo. Quando as mudanças são constantes e a um ritmo acelerado, o indivíduo fica mentalmente desorientado. Ele não pode mais se basear numa cultura na qual viveu, pois ela desapareceu, mas também não teve tempo para adaptar-se a uma nova cultura que também está desaparecendo.
Tal situação, já percebida pelos Toffler em meados da década de 60, tinha por causas o aumento populacional, a industrialização, o avanço científico e tecnológico e o acesso crescente aos meios de comunicação (lembrando que o rádio e a televisão eram invenções recentes que se massificavam, que os satélites de comunicação entraram em operação na década de 50, enquanto os computadores estavam em pleno desenvolvimento), nos dias de hoje o fenômeno tornou-se ainda mais grave, com aceleração ainda mais intensa provocada pelo uso da TV a cabo, da Internet e dos sistemas de comunicação móvel.

Os Toffler não são pessimistas. Para eles, o progresso é necessário e o único caminho para garantir melhores condições de vida para todos. Porém, frente ao "choque do futuro" a humanidade encontra-se diante da necessidade de superar um grande desafio, o que só pode ser feito por meio de um conjunto de medidas tanto de ordem pessoal quanto coletiva.
O controle racional dos fluxos de mudança, desconectando-se e acelerando, segundo Alvin e Heidi, é possível a quem realmente se conhece e pode avaliar suas próprias condições de saúde física e mental. É preciso conscientizar-se do problema (com ajuda profissional, caso seja necessário), desenvolver novas e criativas estratégias, testá-las e abandoná-las caso mostrarem-se inadequadas. Paradoxal é que para controlar o fluxo de informações e seus efeitos, é preciso ainda mais informações, o suficiente para tornar possível a discussão publica do desenvolvimento tecnológico, seus benefícios, malefícios e prioridades, além de planos de educação e pesquisa.

Choque do Futuro foi lançado no Brasil pela Editora Record. Está fora de catálogo, mas ainda é possível encontrá-lo em sebos. Embora esteja desatualizado ainda vale ser lido como retrato de uma época que muito tem em comum com os dias atuais.



Publicado em literatura por Helena Novais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

1984

       Escrito pelo jornalista, ensaísta e romancista britânico George Orwell e publicado em 1949, o texto nasceu destinado à polêmica. Foi traduzido em 65 países, virou minissérie, filmes, inspirou quadrinhos, mangás e até uma ópera. Mas - ah!, estava demorando - ganhou renovados holofotes em 1999, quando a produtora holandesa Endemol batizou seu reality show (formato que chegou à TV nos anos 1970), de Big Brother, o mais sinistro personagem, ou melhor, entidade do livro. O pai da ideia, John de Mol, nega de pés juntos a inspiração, mas há outras associações possíveis além do nome do programa. A origem do título 1984 é controversa. Orwell supostamente queria "O Último Homem da Europa", mas seu editor Frederick Warburg insistiu que trocasse por algo mais comercial. O texto foi concluído em 1948 e o nome traz os dois dígitos finais invertidos. Era uma forma de dizer que a distopia descrita não era uma ameaça d"Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam 13 horas." Assim começa um dos romances mais citados do século 20. A frase omite o ano da ação, mas isso seria redundante, pois ele dá nome à obra: 1984. Só a menção ao título desencadeia uma avalanche de associações mentais: comunismo, polícia política, nazifascimo, tortura... O livro ganhou fama por tratar de forma ficcional de uma das grandes mazelas contemporâneas, o totalitarismo,distante. 

O PODER DAS PALAVRAS: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA

Se a utopia é a força motriz que procura forjar a civilização ideal, 1984, a obra-prima do escritor britânico George Orwell, mostra o reverso deste sonho

Com um pessimismo implacável, Orwell retrata o desespero humano no universo da distopia, recriando um totalitarismo que submete e controla a sociedade, em que a liberdade dá lugar à anulação do indivíduo e a linguagem é manipulada de forma a estruturar os pensamentos e percepção que cada indivíduo tem da realidade.
“Tornar impossíveis todos os outros modos de pensamento”, eis o perfeito mecanismo de controlo, elaborado pelo estado totalitário, que Eric Arthur Blair (1903-1950), o pseudónimo literário de Orwell, retrata em 1984. Mas como é que se consegue manipular os nossos próprios pensamentos, algo tão interior e difícil de ser escrutinado por quem nos é exterior?
Antes de mais, imagine um país onde existem os ministérios do Amor, da Paz e da Verdade. E, ainda, um líder que se denomina de “Grande Irmão” (Big Brother, na versão original). Este é um cenário quase idílico, quiçá saído de um conto de fadas. Contudo, já se sabe que as aparências enganam e que as palavras podem ludibriar, escondendo a realidade.

Não é de admirar, portanto, que no mundo sombrio que Orwell delineou o Ministério do Amor tenha, afinal, a missão de espiar e manter sob controlo apertado a população, com o Ministério da Paz a zelar pela manutenção da guerra, enquanto o Ministério da Verdade censura e manipula (altera) toda a informação e literatura que circula – bem ao jeito de “o que ontem era verdade, hoje é mentira”, e assim criando o mito de que o Estado está sempre certo naquilo que decide e faz.

Liberdade? O que é isso? Quanto ao Grande Irmão, cuidado com ele, pois na verdade mais não é do que um ditador omnipresente e vigilante – aliás, a propaganda do estado bem avisa que “o Grande Irmão está a observar-te” (Big Brother is watching you).
“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”. Eis o principal lema do Grande Irmão. Ao exaltar tanto a guerra como a ignorância e ao desacreditar a liberdade, pretende-se esconder os verdadeiros conceitos que lhes são intrínsecos – a guerra é destruição, a liberdade é força e a ignorância é escravidão. A realidade acaba por ser distorcida e reconstruída, ajudando a perpetuar o status quo e o poder de quem exerce o controlo absoluto. Maquiavélico, relativamente eficaz, mas ainda assim com algumas lacunas.
Eis por isso, e indo ao encontro da visão “orwelliana” de que nenhuma forma de controlo é impossível, que o estado totalitário de 1984 vai desenhar e impor uma linguagem artificial e minimalista – a Novilíngua –, destinada, em grande parte, a suprimir diversas palavras e expressões, assim como muitos dos conceitos que lhes estão associados.
Usando um pouco do hocus pocus da censura, a palavra liberdade, por exemplo, acaba por ser suprimida do vocabulário, pelo que as gerações futuras jamais conhecerão e compreenderão o próprio conceito de liberdade, a essência de pensamentos e actos que estão adstritos a esta palavra. Eis como se fabrica um novo mundo... que dispensa a liberdade.
Basicamente, a Novilíngua actua como um mecanismo perfeito que limita e aprisiona o intelecto do indivíduo, funcionando como arma de controlo sobre ele, num domínio que não necessita do uso da força para prevalecer, já que os cidadãos nunca terão consciência de que estão a ser manipulados e reconstruídos a partir do seu interior.

Adolf Hitler foi extremamente hábil em usar a rádio para difundir os seus discursos de propaganda, construindo ideias e "verdades" que serviam os interesses da ideologia nazi.
Mentiras que soam a verdade Em 1947, o alemão Victor Klemperer (1881-1960) publicou A linguagem do Terceiro Reich, livro no qual denuncia, detalhadamente, a forma como o partido Nazi controlou os alemães… controlando precisamente a linguagem.
O que Kemplerer fez, muito simplesmente, foi estudar a forma como a propaganda Nazi alterou a língua alemã, de modo a que os alemães assimilassem o Nationalsozialismus (a ideologia Nazi). Tal como escreveu no seu livro:
“[O] nazismo permeou a carne e o sangue das pessoas através de palavras, idiomas e sintaxes que lhes foram impostas num milhão de repetições, as quais foram interiorizadas de forma mecânica e inconsciente […]. A linguagem não é algo que simplesmente escreve e pensa por mim; também dita, de forma crescente, os meus sentimentos, ao mesmo tempo que governa todo o meu ser espiritual […]. As palavras podem ser como pequenas doses de arsénico: são engolidas sem se dar conta, aparentam não ter um efeito, mas eis então que, após algum tempo, a reacção tóxica instala-se de uma vez por todas.”

Para Michel Foucault, aquilo que consideramos como "a verdade" mais não é do que uma construção, sendo que ela emerge daquilo que é dito e escrito em determinados contextos históricos.
Tal como caucionou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), a produção do discurso (da linguagem) está relacionada com as próprias técnicas e dispositivos de poder. No entanto, as palavras são muito mais do que um mero meio para atingir um fim, pois o discurso é em si um poder: “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos”.
Eis o poder das palavras, uma força tão poderosa que levou George Orwell a temer pelo futuro, pois são elas que dão forma aos nossos pensamentos. Tal como chegou a descrever, a linguagem pode ser usada “para fazer as mentiras soarem como verdadeiras, o assassínio respeitável ou para dar a aparência de solidez ao puro vento”.


 PUBLICADO EM ARTES E IDEIAS POR JOÃO PEDRO LOBATO

A VERDADE SOBRE O BIG BROTHER POR ORWELL, MARX, FOUCAULT E BAUMAN

"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." George Orwell.
Nas ruas, em casa, no trabalho, na escola, nos shoppings, em qualquer lugar que se vá, somos vigiados. Nada escapa aos olhos, digo, as lentes atentas das câmeras. Somos monitorados, invadidos, fiscalizados, escaneados e mais um pouco. Nada de privacidade, tudo se convergiu em púbico ou potencialmente em público. E não ousem pensar em nada diferente, pois, a vigilância nos nossos tempos é, em grande parte, voluntária.
O controle feito pelo Partido, “personificado” pelo Big Brother, no mundo distópico de Orwell, se dá pela vigilância constante, a qual controla tudo, inclusive, os pensamentos dos indivíduos. Desse modo, o indivíduo deve estar integralmente sob o controle do Big Brother, que tudo vê e ouve. Assim, qualquer desvio de conduta, ainda que seja em pensamento, é considerado crime, o qual se chama “crimideia”.
Não há, portanto, a possibilidade do indivíduo pensar por si mesmo, tampouco, questionar a realidade posta pelo Partido. Bem como, todo meio que propicie o autoconhecimento, como fazer algo sozinho, é visto como uma conduta imprópria e perigosa, a qual se chama “proprivida”. Ou seja, os indivíduos são despersonalizados e convertidos em autômatos controlados pelo Big Brother.
O mundo em 1984 não difere em nada do nosso. A vigilância que sofremos contemporaneamente é tão autoritária e controladora quanto a do livro. Assim como no livro, somos dominados pela ideologia dominante, o que significa dizer em termos marxistas, que a dominação não acontece pela força, mas sim, pelo convencimento. Isto é, a realidade é moldada segundo as vontades da classe dominante, que nos vendem como verdades as suas mentiras arquitetadas.
Essa falsa consciência da realidade, que aceitamos, no entanto, não é construída e controlada apenas pelo Estado. É o que bem atenta Foucault, uma vez que os mecanismos de poder, na sociedade capitalista, se subdividem em micro-relações, de modo que ultrapassam o Estado e atingem a vida cotidiana. Sendo assim, a vigilância acontece em todas as esferas do convívio social, produzindo e impondo normas de comportamento e adequação.
Seguindo o modelo do panóptico, há uma visibilidade total do indivíduo, fazendo com que a sua vida privada também se converta em pública, a fim de que seja controla nos mínimos detalhes. Esse aspecto torna-se possível pelos aparelhos tecnológicos e pela internet. Estes são como a teletela de Orwell e exercem a mesma função do Big Brother, qual seja, vigiar a vida das pessoas, assim como, punir os inadequados.
A vigilância total das sociedades atuais deveria causar desconforto e falta de liberdade. Entretanto, as pessoas parecem estar à vontade e totalmente dispostas a contribuir para o controle. Imersos no conteúdo midiático, seguem as ordens do Big Brother que lhes indica o que deve ou não ser feito, o que em uma sociedade consumista, pode ser resumido como o que deve ou não ser (existe essa possibilidade?) comprado. Após isso, correm para as redes sociais, para que possam postar suas selfies, demonstrando para o Big Brother que, como bons companheiros, seguiram à risca os seus comandos.
Essa vigilância voluntária é o que Bauman chama de “vigilância líquida”, já que consentimos em não somente fazer parte, como também, contribuir para o controle, desconsiderando todos os perigos de uma vida totalmente vigiada e controlada. Dentro de um modelo panóptico, isto é, de visibilidade total, a vigilância tornou-se liquefaz e, assim, é capaz de ocupar todos os espaços.
Com uma vida vigiada, nos tornamos autômatos, sem vida e subjetividade, como os sujeitos do mundo de Orwell. Embora nos achemos diferentes e autênticos, nos comportamos da mesma forma, como se tivéssemos saído das páginas de 1984, vestindo os macacões azuis dos membros do Partido. Somos meros reprodutores do discurso do Big Brother, sem poder crítico e com a gama de pensamento reduzida. Insistimos em manter as teletelas ligadas o tempo inteiro e não hesitamos em demonstrar a nossa obediência a sua magnificência.
Estamos sob o controle do Big Brother para Orwell, da ideologia para Marx, do panóptico para Foucault e da vigilância líquida para Bauman. Cercados de grades que ajudamos a construir, mas que fazemos de tudo para não enxergar, somos controlados em cada suspiro do nosso pensamento. Para não sermos inadequados, abdicamos da intimidade para tornamo-nos massa singular de lentes aprisionadoras e microfones que impossibilitam qualquer palavra autêntica, já que, quando passamos a postar fotos de comida no Instagram, fica difícil acreditar que os sonhos não estão sendo monitorados.
PUBLICADO EM SOCIEDADE POR ERICK MORAIS

RESENHA DE 1984 DE GEORGE ORWELL

George Orwell - pseudônimo de Eric Arthur Blair - fez história - e talvez a tenha alterado - com o livro de modo que estados de vigilância profeticamente preditos por ele são remetidos ao termo 'orwelliano' em alusão ao Big Brother, o mesmo do programa televisivo de moral decadente. Natural que o estado de vigilância por câmeras é apenas uma fracção de sua predileção pois o voyeurismo governamental alcançou novas proporções com os escândalos da NSA.
"O Progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor." George Orwell - 1984 - P.310
O clássico livro de 1949 apesar de datado a um então 1984 continua atual como nunca, ainda que as previsões não tenha se concretizado. Não se concretizaram? As assustadora as descrições do autor, parece que ele tenha roubado um manual dos tiranos ou seja um profeta, pois confere mais acertos que a Mãe Dinah às inúmeras ditaduras como da Coreia do norte atualmente, e mesmo o modus operandi de alguma seita ou sociedade secreta de moral duvidosa.
"Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandona-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. faz-se a revolução para instalar a ditadura." George Orwell - 1984 - Página 308
George Orwell - pseudônimo de Eric Arthur Blair - fez história - e talvez a tenha alterado - com o livro de modo que estados de vigilância profeticamente preditos por ele são remetidos ao termo 'orwelliano' em alusão ao Big Brother, o mesmo do programa televisivo de moral decadente. Natural que o estado de vigilância por câmeras é apenas uma fracção de sua predileção pois o voyeurismo governamental alcançou novas proporções com os escândalos da NSA e Echelon, por exemplo. Emails invadidos, internet espionada nada é seguro pois comprovou-se ser uma vigilância não para nossa segurança, mas para informação deles.
"No futuro não haverá esposas ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tira os ovos das galinhas. (...) O único riso será o do triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. (...) sempre a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. (...) os inimigos da sociedade estarão sempre ali para serem derrotados e humilhados o tempo todo." Página 312 - Smith sob a tutela de O'Brien durante uma sessão de tortura
Nota-se uma destilação de um extrato, suco da mais pura maldade personificada na sessão de tortura de Winston Smith. Algo que beira a demência sistemática e inominável de tão cruel e visceral. Visivelmente inspirou alguma coisa de Matrix. Parece o procedimento monarca a transforma-lo numa borboleta com aspirações em 'V For Vedetta' o qual a intensão é nada menos que remodelar o conceito de sanidade e realidade. Compreensível porque esse livro seja tão importante.


Só a mente disciplinada enxerga a verdade, Winston. Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto, Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo que o partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido." P.292

Sobretudo a ideia não é somente a falsificação orwelliana da realidade e da verdade o qual mesmo pessoas são 'vaporizadas' - são tornadas em nada ao terem a vida deletada e quaisquer registros ou outras delas -, mas a cristalização da hipocrisia através do 'duplipensamento' em função da prática da contradição em detrimento da ilusão. Não obstante, porque a abstinência da verdade definha a moral por uma alienação completa e irreversível pela institucionalização do cinismo hipócrita: faça a maldade e seja conhecido pela bondade quando a exemplo do contrassenso da criação de um inimigo para massacra-lo e a prática da luta contra o opressor por métodos opressores é a capitulação da moral.
De todas as criaturas somente a figura genuinamente humana luta pela verdade, de modo que seu oposto denota um afastamento de sua essência e cerne filosófica. A dissonância cognitiva somente é permissiva - em alguns graus - como verdade a area da mecânica quântica e conveniente apenas ao multiverso. Construindo os preceitos até mesmo de numa nova língua que busque limitar o pensamento, a 'novafala', Orwell conseguiu feitos até então possíveis apenas por um Tolkien. Com o livro, uma espécie de exercício literário de um ensaio sob forma de ficção Orwell teria provado que é possível aprender história antes dela acontecer, mas já está acontecendo.

 PUBLICADO EM LITERATURA POR GERSON AVILLEZ

terça-feira, 26 de janeiro de 2016


JANEIRO em Onze Mil CONFIGURAÇÕES

JANEIRO em Onze Mil CONFIGURAÇÕES

1.  Impossível ficar do lado de fora com todas
    margens e mistérios.
2.  O letramento nos conduz e até precipita entre
    luzes e abismos.
3.  Interrogamos Iluminismos. Intermediamos
    Complexidades.
4.  Sob. Sombras. Sabedorias. Sobras.
    Da possível totalidade aos limites nada-ficantes
5.  Processo de percepção além dos sen-ti-menta-lismos.?! 
    Eterno conforto do Pai–Mãe–Família–Civilizações.
6.  Impossível aletrar-se nos desejos de compreensão
    e desatinos das pátrias deseducadoras
7.  Sejamos Errantesssssssss pelo BOI-NEON.
8.  Socialismos dificílimos.
    Kapitalismos propinadoloressss.
9.  Não invejar consagrados nem louvar alter-na-ti-vos.
10. Tudo pode ser musicalidade.
    Tudo seria extemporâneo.
    Tudo convocaria ao NADA.
11. Impossível escapar dos amantes de 
    Freud Pereira. 
    Marx Weber Mota.
    Jung Baobá Menezes.
    Gerson do PSOLUAR.
    Sartre Cortez.
    Miró da R. da Alegria.
    Joyce dos sexos e séculos.
    Rosa de WASempre.
    Ofélia sem Hamlet.
    
    Para reinventar estéticasssss.
    Outros Blocos da Saudade infinitamente 
    carnavalesca.
    Agenda: dia 28 (quinta-feira) às 19hs no auditório
    da Livraria Cultura do Recife:
    SARAU FILOSÓFICO DO BLOCO DO NADA.
    
    Pelo exercício caligráfico nadificante.
    Jomard Muniz de Britto, jmb
    atentadospoeticos@yahoo.com.br

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Transgressor até o fim

No último clipe, "Lazarus", Bowie transforma a morte em obra de arte 

Artista aparece em uma cama de hospital cantando versos que, diante do impacto de sua morte, ilustram sua emocionante despedida. (A matéria abaixo foi escrita por: Marcelo Perrone

Não deixem de ver no you tube :https://www.youtube.com/watch?v=hD9Y5YDQh-k

STARMAN DAVID BOWIE BLACKSTAR

Bowie em cena do videoclipe de "Lazarus", lançado dias antes de seu novo disco, "Blackstrar"Foto: David Bowie / Divulgação
"Olha aqui, eu estou no paraíso", começa a cantar Bowie em Lazarus, canção daquele que nenhum fã poderia imaginar que seria mesmo seu último disco,Blackstar, lançado na última sexta-feira, dia em que completou 69 anos. A melancólica canção remete ao personagem bíblico (Lázaro é o homem que Jesus Cristo traz de volta do mundo dos mortos) — e era justo um fã de Bowie querer interpretá-la como uma celebração do artista à vida e à retomada da carreira com mais uma de suas surpreendentes reinvenções sonoras. 
Mas o videoclipe de Lazarus, revisto agora sob o tremendo impacto da morte de Bowie, foi de fato uma despedida. Visivelmente debilitado pelo câncer que enfrentou de forma muito reservada nos últimos 18 meses, Bowie aparece em uma cama de hospital cantando versos como "eu estou em perigo, nada tenho a perder" e falando de "cicatrizes que não podem ser vistas". Está vendado, com dois pequenos objetos circulares sobre os olhos, emulando os milenares rituais que colocam moedas sobre as vistas dos mortos. 
Por um breve momento, aparece próximo a uma janela, iluminado, e dança lembrando "do tempo que cheguei a Nova York e estava vivendo como um rei". Essa sequência pode ter sido seu derradeiro esforço para mostra-se ao fãs com a energia performática e transgressora que lhe foi tão característica ao longo da vida. E então vai saindo de cena lentamente, caminhado para trás até fechar a porta. O brilho vira escuridão. Bowie foi um artista corajoso e inovador até seus últimos instantes. Fez de seu próprio obituário uma emocionante obra de arte.
Veja a  letra de Lazarus 
Look up here, I'm in heaven
I've got scars that can't be seen
I've got drama, can¿t be stolen
Everybody knows me now
Look up here, man, 
I'm in danger 
I've got nothing left to lose 
I'm so high it makes my brain whirl 
Dropped my cell phone down below 
Ain't that just like me 
By the time I got to New York 
I was living like a king 
Then I used up all my money 
I was looking for your ass
This way or no way
You know, I'll be free 
Just like that bluebird 
Now ain't that just like me 
Oh I'll be free 
Just like that bluebird 
Oh I'll be free
Ain't that just like me

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

IN MEMORIAN





  David Bowie, nome artístico de David Robert Jones nasceu em Brixton, Londres, 8 de janeiro de 1947 —encantou-se em Manhattan, 10 de janeiro de 2016) foi um cantor, compositor, ator e produtor musical inglês. Por vezes referido como "Camaleão do Rock" pela capacidade de sempre renovar sua imagem, tem sido uma importante figura na música popular há cinco décadas e é considerado um dos músicos populares mais inovadores e ainda influentes de todos os tempos, sobretudo por seu trabalho nas décadas de 1970 e 1980, além de ser distinguido por um vocal característico e pela profundidade intelectual de sua obra. Conheci a sua genial obra por três vias a primeira através dos Beatles, principalmente por John Lennon na parceria da música FAME (Fame, it's not your brain, it's just the flame/That burns your change to keep you insane (sane).Fame (fame). Fama, que não é o seu cérebro, é apenas a chama/Que queima sua mudança para mantê-lo louco (são)(Lennon-Bowie) ). E como vimos nestas fotos com Paul McCartney e o desenho animado dos Beatles e com Ringo with Lulu and Cat Stevens in a 1973 photo with your friends. Depois com o Filme Christiane F, que tem uma participação fantastica sua no filme e por último meu amigo Ivon Rabelo com seus discos vinis maravilhosos e um dos meus preferidos é o Disco Diamond Dogs a começar pela capa


        Diamond Dogs é um trabalho que mostra Bowie, redundância, em nova fase de transição. Ele já tinha visitado os mods na Swinging London de 1967, o folk lisérgico em “Space Oddity” (1969), o hard rock em “Man who sold the world” (1970), tinha forjado a persona Ziggy Stardust e vários discos antológicos (vide “Hunky Dory”, “Ziggy Stardust” e “Alladin Sane”), e ajudado, ainda, a cristalizar o gênero (???) que ficou na história com o nome de glam rock. Em fins de 1973, meio de saco cheio com toda a badalação criada em torno de Ziggy, que, diga-se, tomava mais vulto que sua própria música, Bowie se despede da Spiders From Mars (Banda que o acompanhava desde 1970), mas ainda encarna o andrógino no disco "Pin Ups", no qual presta tributo às suas influências. Anuncia, entretanto, em shows, que era para breve a última aparição da persona.1974 abre com Bowie definindo o projeto que tentaria tirá-lo da arapuca Ziggy e que mostrava o desejo de direcionar sua inspiração apenas àquilo que melhor sabia fazer: compor e interpretar, sem rotulações e teatrinhos baratos. O projeto se chamava “Diamond Dogs” e era calcado em “1984”, livro de George Orwell que tratava de um suposto (hoje, sabemos, nem tão suposto) futuro em que tudo e todos eram vigiados pelo tal Big Brother (desnecessário maiores explicações).
           Um disco conceitual calcado em uma obra sombria. Certamente uma aposta alta para a esfuziante cena rock de 1974, dominada pelo energético hard do Purple, pelo etéreo som do Zep, pelo soft rock do America e do Steely Dan e pelo power pop do Big Star e do Badfinger.
(Flávio Magalhães)


domingo, 10 de janeiro de 2016

MIRÓ DA MURIBECA E O SEU aDeus


   Em São José do Egito, com Miró, li seu excelente livro aDeus, lançado pela Mariposa Cartonera e o seu envelope "Amanhã não existe ainda", que me lembrou o lendário disco dos Beatles "REVOLVER" a música "Tomorrow never Knows"

NOVA ELITE CAIPIRA

Sobre uma curiosa inversão histórica na ordem da cultura
TAGS: cultura, elite, povo, Tropa de Elite
No título do famoso filme Tropa de elite (José Padilha, 2007), o termo elite referia-se ao grupo de policiais especialmente treinados para operações muito complicadas. A “elite” que era a tropa tinha um significado de especialização, superioridade, hierarquia, entendidas tecnicamente.  Na contramão, quem utiliza o termo em outros contextos refere-se, em geral, a: “donos do poder”, “classe dominante”, “oligarquia”, “dominação política”, “dominação econômica”, “classe dirigente”, “minoria privilegiada”, “formação de opinião”, “dirigente cultural”. “Elite” é termo usado para designar as vantagens petrificadas de “ricos” e “poderosos” que comandam massas, as maiorias anódinas que, não tendo poder, parecem não ter escolha quanto a deixar-se conduzir.
Usado em oposição a povo, à democracia, à simplicidade das gentes, à cultura popular, o termo é usado para designar grupos econômica, cultural e politicamente dominantes. Seu uso atual, no entanto, erra o alvo em relação à cultura, desde que vivemos uma curiosa inversão cultural.
Morfina estética
Há dois tipos de caipira. Um que era o oposto da elite, como o simpático Jeca Tatu, e outro, que é a própria nova elite, o cantor da dupla sertaneja que, depois de um banho fashion, fica pronto para o ataque às massas, mesmo que seu estilo continue sendo o do chamado “jeca”. Refiro-me ao “caipira” ou “jeca” como figura genérica, mas poderia também falar da moça cantando seu axé music, seu funk, que, de repente, não é uma “artista do povo” como quer fazer parecer a indústria que a sustenta (e atormenta o povo como F. Bacon dizia que era preciso tormentar a natureza para receber dela o que interessava à ciência), mas é a rica e poderosa estrela – e objeto – da indústria cultural.
Sem arriscar um julgamento quanto à qualidade estética dos produtos do mercado, é possível, no entanto, questionar sua qualidade cultural e política. Muitos defendem que “é disso que o povo gosta”, enquanto outros dirão que o povo experimenta uma baixa valorização de si ao aceitar o que lhe trazem os ricos e poderosos sem que condições de escolha livre tenham sido dadas, o que surgiria de uma educação consistente – e inexistente em nosso contexto. A injeção diária de morfina estética que o povo recebe não permite saber se  o “gosto” é autóctone ou externamente produzido.
De qualquer modo, no mundo da nova elite, a regra é a adulação das massas. Qualquer denúncia ou manifestação de desgosto em relação ao que se oferece a elas é sumariamente constrangida.
Mais curioso é a inversão culturalmente curiosa que está em cena. No lugar das extintas “elites culturais”, sobem ao podium as novas estrelas que permutam o antigo poder do artista e do intelectual pelo poder do jeca para quem a arte não é problema.  Se o intelectual é melhor ou pior do que o jeca não é a nossa questão. Questão é desvendar o seguinte: num quadro em que professores recebem um torturante salário de fome, em que intelectuais sérios precisam pedir desculpas por existir, em que escritores permanecem perplexos sem saber se sobreviverão em um país de analfabetos, em que artistas-não-jecas recebem pareceres humilhantes de agências e ministérios, enquanto todos estes são questionados quanto a seu papel social e sua contribuição para a sociedade como se fossem um estorvo, ninguém pergunta sobre o papel cultural da elite caipira: Xuxas e Sangalos, Claudias Leittes e Luans Santanas, Micheis Telós – para citar exemplos – são livres para exercitar um autoritarismo sutil, covarde e sedutor na condução das massas à imbecilização planetária. Politicamente correto é elogiar a imbecilização como se ela não estivesse em cena impedindo a reflexão. O autor da crítica à nova elite sempre pode ser xingado de “elitista”, afinal, a elite jeca não tem outro argumento senão o disfarce.

(Marcia Tiburi, publicado na  revista CULT)


sábado, 9 de janeiro de 2016

BRÁULIO TAVARES OU TRUPIZUPE, O RAIO DA SILIBRINA.

                                    Com o Poeta Bráulio Tavares em São José do Egito-PE
         Bráulio Tavares é colunista, escritor, compositor, estudou cinema e é pesquisador de literatura fantástica.Nascido na  cidade de Campina Grande, Paraíba, ganhou a premiação portuguesa Caminho da Ficção Científica pelo livro de contos A espinha dorsal da memória (1989). Pela Casa da Palavra, publicou as antologias Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005), Freud e o Estranho: contos fantásticos do inconsciente (2007), Contos obscuros de Edgar Allan Poe (2010) e Páginas do futuro: contos brasileiros de ficção científica (2011), além de traduzir o clássico O fantasma de Canterville (2011), trabalhos feitos em parceria com Romero Cavalcanti. Conheci seu trabalho quando estudava em Recife nos anos 80, seu livro de poesia, "Sai do meio que lá vem o filósofo" (Edição do autor, 1982), foi meu primeiro contato e como diz o crítico e poeta paraibano, Hildeberto Barbosa Filho:
"A poesia de Bráulio Tavares funda raízes numa mescla criativa de fontes em que dialogam a tradição do cancioneiro popular, nos ritmos despachados, líricos e melódicos do repente e do cordel, a pulsação desencontrada e irreverente da dicção contracultural e os arrepios formais da erudição e da vanguarda".


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A FLAUTA MÁGICA: DE MOZART A BERGMAN

A ópera esotérica se apresenta como a última obra-prima completa de Mozart. Encanta e instiga, há mais de 200 anos, todos que se deixam arrebatar. E adquire novo gesto na poética cinematográfica de Ingmar Bergman. As linguagens que se convergem na magnificência da arte. PUBLICADO EM ARTES E IDEIAS POR LARISSA PAES.
       Sendo uma das últimas obras concebidas por Mozart (a última obra foi Missa de Réquiem, deixada inacabada, em 1791, mas com premissas para a sua conclusão pelo seu pupilo Franz Sussmayr), A Flauta Mágica é inscrita por estórias de extrema relevância para o engendramento da atmosfera esotérica. Em meados do século XVIII, na Europa, a maioria dos ilustres personagens do campo artístico e intelectual eram membros da Maçonaria (sociedade secular que preza, em suma, pela elevação espiritual por meio, dentre outras vertentes que a permeia, pelos ensinamentos do rei Salomão. No começo, até a eclosão em Londres; onde emergiu outra fase, a Maçonaria era associada ao ofício de 'pedreiro' e afins. Sendo quase unânime o vinculo comerciário; evidenciado nas lojas com especificidades maçônicas essenciais, arraigada, em parte, por doutrinas alquímicas). Amadeus Mozart ingressa categoricamente nessa sociedade em 1784 (com 27 anos), mas tendo sua sutil gênese nesa ordem desde os 11 anos, por causa, em geral, do convívio com pessoas conectadas à sociedade secreta.
      A liturgia reversa da fraternidade maçonica perpassou as obras de Mozart desde a infância, mas de forma mais consciente quando foi forjado Aprendiz (1784). Quando concebeu a mais difusa e aclamada de suas óperas, A Flauta Mágica, já era Mestre maçônico. A ópera conhecida como ''ópera maçõnica'' apresenta os princípios maçons mais básicos, processo de iniciação maçônica e a ancestral sabedoria sussurrando seus segredos sutilmente na música e no libreto (texto intrínseco à ópera). Apesar da pretensão espiritual embutida, a ópera, à época, articulou com um público pouco sociável com essa pretensão.Ópera classificada como ‘’singspiel’’ (estrato do gênero caracterizado, em suma, pela presença de diálogos falados). E no seu arcabouço ainda há a presença dos conceitos do Iluminismo (a racionalidade refutando a obscuridade ecoada pela Igreja, o conhecimento estagnado agora vindo à luz). O libreto criado pelo teatrólogo, comerciante e barítono Schikaneder (por ele dá oportunidade a Amadeus num período, financeiramente, cruel; já que era dono de um pequeno teatro, e pela ligação maçônica, se conheciam de longa data) foi bombardeado por críticas, pois, utilizando prerrogativas de contos de fadas, o texto mostrou um aspecto ‘’infantilizado’’ (no sentido depreciativo) e inferior à genialidade musical da ópera. ‘’Mais conhecimento é necessário para entender o valor deste libreto do que a zombar dele’’, disse o célebre escritor Goethe, indignado pela reverberação negativa do libreto. Entusiasta da obra, Goethe, assim, planejou realizar uma continuação da ópera, uma segunda parte, que ficou incompleta, pois desistiu de continuar.
     Sinopse da ópera: Um príncipe, Tamino, e um caçador de pássaros, Papageno, atendendo ao apelo de uma rainha, a Rainha da Noite, aceitam a missão de resgatar a princesa Pamina, que está sequestrada no castelo do temido Sarastro. Para cumpri-la, Tamino e Papageno recebem da Rainha da Noite, por intermédio de três de suas damas, um carrilhão e uma flauta mágica, bem como, a ajuda de três espíritos, para guia-los. Revelações e reviravoltas recheiam a obra. Os personagens mais significativos e emblemáticos são: a Rainha da Noite e Sarastro. A Rainha associada à obscuridade da ‘’Idade das Trevas’’. Ela encarna as ‘’desvirtudes’’ que são renegadas pela simbologia maçônica. Apresenta-se, assim, contrapondo a miséria espiritual, Sarastro como um ‘’sumo sacerdote’’, ensejando tempos de benevolência.Como disse o historiador Luiz Roberto Lopes: ‘’A Flauta Mágica expõe e defende questões de ideias bem ao gosto dos iluministas. Ela apresenta elevados sentimentos humanos traduzidos num clima de beleza. Enfim, é a obra dos altos ideais se impondo às sombras, é o evangelho de uma religião muito particular de Mozart, impregnada do humanismo confiante e da felicidade como aurora promissora no horizonte. ’’
      Na casa de espetáculo Royal Opera (Estocolmo), no ano de 1930, Ingmar Bergman (1918 - 2007) assiste a ópera A Flauta Mágica. O fascínio do pequeno Bergman vai circunscrever sua criação cinematográfica; no sentido da música erudita em si. A consagração da paixão de Bergman por música é evocada no filme A Flauta Mágica. Na década de 60, o homem do cinema vislumbrou intensamente encenar A Flauta Mágica. Apesar de alguns percalços (maioria relacionados ao fator administrativo) fazendo fissura no desejo altivo de Bergman, a materialização veio em 1975, numa produção feita para a televisão sueca. Porém, em 1966, no filme A Hora do Lobo (espécie, em suma, de um ‘ensaio’ perturbador sobre o sofrimento humano), o cineasta apresentou uma parte da ópera A Flauta Mágica; utilizando um teatro de marionetes.
Como disse Ingmar: ‘’Por um breve instante o sofrimento é aliviado. É quando representam A Flauta Mágica. A música proporciona-lhes alguns momentos de paz’’
       Afirmando o que a música representa em sua arte: um interlúdio de contemplação onde a beleza metafísica aconchega o ser humano, harmonizando-o. Evidenciando isso sutilmente em muitos de seus filmes, como em O Silêncio (1962).Em meados de 1974, quando Ingmar estava prestes a iniciar a pré-elaboração do argumento do filme Face a Face (estrelado pela Liv Ullman), eis que chegam ao fim as filmagens de A Flauta Mágica. Bergman registra isso na sua agenda de trabalho:‘’As filmagens de A Flauta Mágica estão concluídas. Foi um período extraordinário de minha vida. A proximidade e satisfação diária da música! De que dedicação e ternura fui alvo!’’
Bergman quis ser fiel à montagem original da ópera de Mozart, ou seja, realizá-lo num teatro barroco, com toda a articulação própria desse espaço. Assim, a construção do filme é uma espécie de ‘’teatro filmado’’, com plateia e afins. Como um retorno à infância; já que assistiu a ópera por esse período, Ingmar explode isso quando centraliza a câmera, por vezes, no rosto de uma criança esboçando sua reação ao espetáculo. Um fator, dentre muitos, interessantes desse filme é o público, pois se mostra não elitista – como é comum no caso de óperas -, mas sortido, mostrando o alcance da obra e seu aspecto popular.O cosmo dessa produção é onírico, fantástico e incrivelmente solar, feliz; já que, conhecendo a filmografia de Ingmar, isso é um aspecto dissonante; não mostrando perspectivas existenciais perigosas e pungentes. A crítica a esse filme está na não fidelidade à língua originaria, pois a ópera não é encenada em língua alemã, mas na língua sueca. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira pela Academia Britânica de Cinema e Televisão.
A Flauta Mágica possibilitou uma comunhão definitiva e genuína de Bergman e Mozart.




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