domingo, 26 de junho de 2016


FERIDAS OCULTADAS MAS NÃO INVISÍVEIS

Artista guatemalteca, em um único vídeo, discute os regimes totalitários, a destituição Indígena em seu país e o contexto de exploração da mulher.    Uma mulher está rodeada de terra. Seu tronco geométrico, desnudo. Estática, ela tampouco parece ter alguma coisa que vista sua mente.
A paisagem é de um verde vivo, como se a vida estivesse próxima – todavia, parece perdida na tentativa de viver.
Vê-se de um armazém de perguntas. Um trator entra em cena e revela uma mão possessiva e agigantada – cuja função é tomar, e tomar tudo.
A cena segue. O corpo da protagonista e seus olhos se configuram como coisa petrificada e morta, diante da indiferença sentida somente por aqueles que estão à mercê do sofrimento. Corpo e olhar, neste contexto, seguem à frente desse outro desconhecido, cujo domínio configura-se como sua única instância de ação.
É um pouco com esta dinâmica que o trabalho da guatemalteca Regina José Galindo se estrutura. Para tratar a desigualdade e as lutas enfrentadas por mulheres em todo o mundo, a artista utilizou relatos do genocídio e dos poucos destroços restantes de uma terra arrasada, o seu próprio país.
Segundo a autora, a população local não quer enxergar a real tragédia que enfrentou durante a enorme guerra civil (1960 – 1996), e a elite local é condescendente com o que ocorreu.
“A maioria da população está a favor da repressão, do assassinato, da brutalidade e da morte. A maioria dos guatemaltecos, com os três dedos que é capaz de enxergar à sua frente, aprovam o genocídio”.
Esquerda comunista
Regina explica que havia uma gigantesca - e infundada - articulação política e cultural para o extermínio ocorrido, partindo da justificativa da Guerra Fria e do apoio estadunidense – com um discurso de que era necessário lutar contra a “esquerda comunista” personificada nos índios daquele país.
“A oligarquia e as pessoas ricas da Guatemala se aproveitaram da conjuntura de guerra para seguirem atacando e ficarem com a maioria das terras dos povos indígenas”, ataca.
O massacre sistemático e deliberado dessas comunidades constituiu um dos maiores terrores das histórias do mundo e da Guatemala. Tropas de soldados do exército e guerrilheiros civis chegavam aos povoados indígenas e destruíam tudo o que podia ser útil para viver: animais, plantações, comida etc.



Há relatos de que os militares utilizavam uma retroescavadeira e faziam fossas comuns de grandes dimensões. Depois, enterravam vivos os pertencentes ao povo Maia da região. Este processo é o que configura a entrelinha artística de Tierra, trabalho da artista que serve como documento e denúncia a essas violações. Durante a Guerra Civil da Guatemala, o massacre de populações indígenas esteve latente e feito por ambos bandos envolvidos na peleja. Somente em 2013, ano em que Regina construiu o vídeo, o povo Ixid pode testemunhar sobre este capítulo doloroso de sua história, responsável pela morte de mais de 1,7 mil nativos. A conclusão do tribunal foi a de que Montt utilizara a fome e a destruição moral como armas militares. Os informes do processo apresentam violações absurdas como meninas apunhaladas pelo pescoço, pessoas amarradas a suas casas e queimadas por soldados, bebês com cabeças destruídas por baionetas.

O vídeo Tierra foi parte da exposição Las invencibles: el trabajo de la mujer nunca se acaba, exibida em Santiago do Chile pelo centro cultural Matucana 100 (m100.cl)
Arte e tragédia humana
O trabalho da performer e poeta é uma maneira praticamente sublime e paradoxal de lidar com este luto. Utilizando imagens esvaziadas, com uma dor nascida a partir do silêncio, ela esmiuça este drama humano que alguns sabem, mas poucos querem enxergar.
Com cores vivas e fortes, Regina José Galindo resgata elementos políticos e lamentáveis do contexto latino-americano. Rememora também toda a condição feminina frente à imposição cultural opressiva em toda a cultura latina, que exacerba a agressão e a servidão.
Mais do que retratar a violência histórica do continente e de seu país, a artista visual engorda a discussão dos abusos contidos nas relações de poder, fortemente vigentes em nosso universo contemporâneo – em especial nos países subdesenvolvidos.
Os erros do passado seguem como uma ferida que a humanidade não pode repetir no futuro e, ainda que de olhos tapados, precisa ver.
*
Texto disponível em espanhol em Nicotina & Cafeína

DÊNIS MATOS

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & ca

sábado, 18 de junho de 2016

FORA TEMER


segunda-feira, 13 de junho de 2016

II EDIÇÃO DP MONTROCK FESTIVAL...

II Edição do Mont Rock Festival, com Robson Araújo , Leão Azul e Geovan Morais...  Com o patrocínio do SEBRAE Monteiro e Auto Posto Amigão, e apoio da Bia+, UEPB e comerciantes da Praça Parque das Águas...Foi bom demais...rever grandes e eternos amigos...fotos de Asley Ravel...






NO CORAÇÃO DO INFERNO



Confira trecho de Aqui, no coração do inferno, romance de Micheliny Verunschk que será lançado em breve pela Editora Patuá. A escritora pernambucana, doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, foi finalista, em 2004, do prêmio Portugal Telecom como livro de poesia Geografia Íntima do Deserto e vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 (categoria melhor romance de 2015 - autor estreante acima de 40 anos) com o romance Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida. 
(1)
Meu pai prendeu um garoto. Minha madrasta chegou pra mim e minha irmã mais velha e disse,
Olha, seu pai prendeu um menino, um rapaz de uns 14 anos, e vai trazer ele pra casa por umas horas, porque seu pai não acha certo ele ficar na delegacia, em risco. É um menino muito novo e vocês sabem bem como o pai de vocês é. Mas isso é só enquanto a viatura não chega pra levar ele pra Matapombos, ninguém precisa se preocupar.
Matapombos fica a uma hora de carro daqui e quase duas horas e meia de ônibus, dependendo da situação da estrada. Quando chove, e chove muito, a estrada vira um lamaçal vermelho, um barro vermelho e pegajoso, como se a lama fosse sangue, e a estrada, sua veia. Matapombos é uma cidade bem maior do que esta em que moro e lá tem tudo o que aqui não tem, como sorveteria, por exemplo, ou como uma fundação pra meninos e meninas que deram errado, uma febem. Febem, Fundação Estadual do Bem- Estar do Menor. É uma sigla. É isso o que quer dizer. Mas apesar de falar em bem, não é lá uma coisa muito boa. De todo modo, é pra lá que o garoto vai, minha madrasta explicou. Minha madrasta tem muitas explicações, um arsenal delas, e sempre acha que sabemos como papai é. Não sabemos. Mas vamos descobrindo.
E ele fez o quê? Por que ele tá preso?, perguntei.
Ela, não muito segura, como se estivesse constrangida, contou, pausadamente, que o garoto matou umas pessoas e a gente meio que se encolheu no susto, porque nem eu e nem minha irmã tínhamos como imaginar papai trazendo um assassino pra dentro de casa, ainda mais um que tivesse matado muitas pessoas. Mas papai é assim mesmo, ele não funciona como todos pensam que ele deveria funcionar, o que faz dele um sujeito com noções muito próprias de dever, moral, justiça e todas essas coisas que os adultos enchem a boca pra falar.
Que maluquice! Papai não pode trazer ele pra casa, não. Só pode tá doido, né?
Minha irmã mais velha estava mesmo inconformada. Na verdade, minha irmã mais velha se conforma pouco com tudo. Papai diz que ela está ficando rebelde e eles batem de frente o tempo todo, num desgostar-se contínuo. Ela esperneia e grita e sai batendo portas. Eu acho um desperdício ser assim, mas acho também que é preciso que alguém grite, mesmo que o outro rebata. Faz parte do mecanismo do mundo. E quando a coisa parece tão absurda, como essa de trazer um assassino pra dentro de casa, gritar sobre a maluquice até parece saudável. Mas, no fim das contas, eu prefiro mesmo o silêncio e, se possível, nenhum confronto, ou nenhum confronto direto, especialmente com papai. Assim como a minha madrasta, que disse pra gente confiar nele e que ficássemos sossegadas, pois o menino ia ficar na cozinha, algemado.
Faz dois anos que chegamos a esta cidade, eu, minhas irmãs, meu pai e minha mãe, isto é, minha madrasta. Minha mãe mesmo morreu quando eu e minha irmã mais velha éramos pequenas. O bebezinho é filha desse segundo casamento. Meu pai veio ser delegado daqui, cidadezinha onde Judas perdeu as duas botas, mas isso por algum motivo havia de ser bom pra carreira dele. Santana do Mato Verde, lugarzinho violento do caralho. Desculpe o mau jeito, eu sou desbocada mesmo. Especialmente quando os adultos não supervisionam.
Quando a gente chegou aqui, ainda na entrada, de uma espiada só deu pra ver a cidade toda. A entrada fica lá em cima, no morro, e a porra da cidade aqui, dentro de um buraco. Minha irmã ficou impossível. Ela chorava sem parar. Aquele choro de soluçar, sabe? Eles tinham dito pra gente que a cidade nem era tão pequena, e que a gente ia fazer novas amizades. Que ia ser maravilhoso, aqui. Essas coisas que os adultos dizem pra conformar as crianças, ou talvez pra se convencer eles mesmos. Coitada de minha irmã. Tive muita pena dela. Já eu, eu não liguei muito, não. Isso porque esta cidade é um acontecimento.
Santana é pequena. Acho que do tamanho ou até menor que o nosso antigo bairro. O que mais me impressionou quando cheguei aqui foi o fato de que uma cidade minúscula precisasse ter dois cemitérios. Um na entrada, outro na saída. O que estranhei no início hoje em dia faz muito sentido pra mim. E diz muito sobre que lugar é este, esta cidade, um monstrengo, um bezerro deformado com uma cabeça na frente e outra na parte de trás, as duas sempre mastigando, mascando, ruminando. Quem olhá-la num mapa verá que é isso mesmo, que é assim que Santana é.
Quase sempre morre alguém em dia de feira, por exemplo. Parece uma festa. Tem duas famílias que são inimigas e volta e meia a gente escuta o estouro de balas zunindo feito o velho oeste americano. Numa festa no clube municipal, por exemplo, teve um bangue-bangue e morreram quinze. Desses quinze, dez eram de uma das famílias. Os outro cinco morreram de estar na hora errada e no lugar mais errado ainda. Foi essa chacina, aliás, que trouxe papai pra trabalhar aqui. Se minha irmã fosse contar isso pras amigas dela, da nossa antiga cidade, acho que não acreditariam, e é bem capaz que rissem de nós, com um pouco de pena, da arapuca em que nos metemos. Mas a gente nem se espanta mais de ver papai saindo armado, quase engasgado do almoço mal comido pra ver se prende bandido em flagrante. Ele diz que é sempre melhor prender o facínora no pulo do gato. Mas não pro bandido, é lógico. De todo modo, morre muita gente por aqui, daí que se fosse um cemitério só, era possível que faltasse chão pra engolir todos.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

REVOLVER 50 DISPARADO NA VANGUARDA DO ROCK


Revolver (1966)

Paul McCartney incentivando os Beatles a fazerem pequenos trechos superpostos, inspirados em John Cage e Stockhausen. John Lennon querendo soar como o dalai-lama no alto do Himalaia ao cantar letras inspiradas no Livro Tibetano dos Mortos. O dedo oriental de George Harrison em uma canção sem mudanças de acordes. A bateria frouxa e hipnótica de Ringo Starr, mais tarde ressuscitada por moderninhos como Beck ("New Pollution") e Chemical Brothers ("Setting Sun"). O produtor George Martin obrigando funcionários dos estúdios Abbey Road a sincronizarem gravadores em colagens aleatórias de som. O técnico Ken Townshend inventando os vocais ADT (Artificial Double Tracking) e o engenheiro de som Geoff Emerick metendo a voz de Lennon numa caixa Leslie dentro de um órgão Hammond. E isso tudo no primeiro dia de gravação do sétimo disco dos Beatles, para uma única canção. A música era "Tomorrow Never Knows", mas ali, no início do álbum, o grupo assinalava a faixa como o começo de uma nova fase, batizando-a sem modéstia de "Mark I".
A canção marcava o princípio de uma era de experimentação na música popular que iria explodir na renascença psicodélica do ano seguinte, transformando o horizonte da cultura pop em um calidoscópio de referências. Com Revolver, os Beatles entravam em uma escalada que desembocaria em obras-primas como Sgt. Pepper's, Album Branco e Abbey Road. De 1966 em diante, passariam a explorar as novas fronteiras da arte, sem perder o senso de perfeição que haviam mirado no álbum anterior. De repente, descobriam as vantagens da manipulação sonora. "Quando experimentamos o som de trás para frente, eles passaram a inverter tudo", diz George Martin no livro Paz, Amor e Sgt. Pepper.
As inovações iam além: microfones dentro de instrumentos de sopro, grudados em violoncelos, colados na bateria. Mas a banda estava ousando mesmo nas composições, com as drogas exercendo um papel fundamental "Dr. Robert" cantava sobre um médico pronto para levantar o astral de quem quisesse.
"Got To Get You Into My Life" expõe o entusiasmo de Paul McCartney com o fumo. "She Said She Said" e "Tomorrow Never Knows" falam de ácido:a primeira disfarça uma viagem que Lennon teve com o ator Peter Fonda e a segunda escancara a exploração de realidades induzidas ("desligue sua mente", "ouça as cores do seu sonho”).
Por outro lado, os Beatles continuavam entrando em portas musicais abertas nos discos anteriores. "Eleanor Rigby" é a evolução natural de "Yesterday","Love You To" é George Harrison em sua primeira incursão de cabeça na cultura hindu, com a qual havia flertado em "Norwegian Wood". "Here, There And Everywhere" e "For No One" transformam McCartney em um jovem Schubert, compondo pequenas sinfonias em vez de baladas de amor. Os assuntos abordados iam da cobrança de impostos a contos infantis, passando por existencialismo, psicodelia, fossa, amor à vida, paixão latente, crítica social e metáforas diversas.
O álbum encontra a banda no exato momento da guinada, um sofisticado registro da melhor música pop de 1966. Poucos meses depois, o grupo encerrou definitivamente a primeira fase de sua carreira ao anunciar que não iria mais tocar ao vivo. ''A transformação toda foi gradual", conta John Lennon no livrão Anthology. "Mas estávamos consciente de que, se havia uma fórmula ou algo do tipo, esta era mover-se para a frente.

Alexandre Matias

sábado, 4 de junho de 2016

IN MEMORIAM...






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