Abaixo, o poema Horas Vivas, de Machado de Assis:
Noite: abrem-se as
flores... Que esplendores! Cíntia sonha amores Pelo céu. Tênues as neblinas Às
campinas Descem das colinas, Como um véu.
Mãos em mãos
travadas, Animadas, Vão aquelas fadas Pelo ar; Soltos os cabelos, Em novelos,
Puros, louros, belos, A voar.
— “Homem, nos teus
dias Que agonias, Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras,
Como as derradeiras Ilusões!
— Quantas, quantas
vidas Vão perdidas, Pombas mal feridas Pelo mal!
Anos após anos, Tão
insanos, Vêm os desenganos Afinal.
— “Dorme: se os
pesares Repousares, Vês? – por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E
lascivas, Somos – horas vivas De dormir!” –
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Poema leve, de estrutura diversa, quase cantarolante, encerra, contudo,
a discussão acerca de duas categorias implícitas sobre o conceito de
Romantismo: a psicológica e a histórica. Assevera J. Guinsburg, na obra O
Romantismo: "A categoria psicológica do Romantismo é o sentimento como
objeto da ação interior do sujeito, que excede a condição de simples estado
afetivo: a intimidade, a espiritualidade e a aspiração ao infinito, na
interpretação tardia de Baudelaire. (...) A primazia da vertente alemã (de 1796
em diante), a primeira a empregar, numa conotação crítica e histórica, a
palavra ‘romântico’, e que selaria a fortuna teórica desse termo, o qual passou
desde então a significar um estado de poesia e uma atitude em relação à
literatura, resultou de uma ascendência intelectual; pois que ligada ao
classicismo de Weimar (Goethe e Schiller), e particularmente sensibilizada pela
problemática schilleriana da poesia ingênua dos antigos e da poesia sentimental
dos modernos, a escola germânica nasceu no clima universitário estimulante de
Iena, de uma geração posterior ao Sturm und Drang, ao mesmo tempo que o
idealismo pós-kantiano".
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Esse momento do poema – a aspiração ao infinito – afilia-o ao Romantismo
à Casimiro de Abreu, em especial no poema Assim, a seguir posto:
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Viste o lírio da campina? Lá s'inclina E murcho no hastil pendeu! -
Viste o lírio da campina? Pois, divina, Como o lírio assim sou eu! Nunca
ouviste a voz da flauta, A dor do nauta Suspirando no alto mar? - Nunca ouviste
a voz da flauta? Como o nauta É tão triste o meu cantar! Não viste a rola sem
ninho No caminho Gemendo, se a noite vem? - Não viste a rola sem ninho? Pois,
anjinho,
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Assim eu gemo, também! Não viste a barca perdida, Sacudida Nas asas
dalgum tufão? - Não viste a barca fendida? Pois querida Assim vai meu coração!
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Em ambos os versos – de
Machado e de Casimiro – assiste-se à quebra da relação clássica entre natureza
e eu, no que concerne ao fato de que, no Classicismo, as leis gerais da
natureza se imiscuíram na regência de toda a vida humana. Isto é, havia uma
maneira peculiar de comunicação entre os mundos exterior e interior do homem,
promovendo um achatamento do sujeito, “encaixado como sujeito universal do
conhecimento, a uma Natureza cuja ordem e cuja regularidade se prolongam na
ordem e na regularidade dos discursos científico, religioso, estético, jurídico
e político do século XVIII (Guinsburg, 1988).
O princípio romântico
intenta, por conseguinte, romper essa similitude de regularidades, por meio do
rompimento das características imutáveis dadas pelo Classicismo aos elementos
constituintes do Universo. No poema machadiano, o substantivo Noite se encontra
personalizado tal qual uma mulher presente na primeira estrofe – Cíntia –
ressurgindo o antigo simbolismo de deificação do elemento noturno:
"Para os gregos, a
noite (nyx) era a filha do Caos e a mãe do Céu (Urano) e da Terra (Gaia). Ela
engendrou também o sono e a morte, os sonhos e as angústias, a ternura e o
engano. As noites eram frequentemente prolongadas segundo a vontade dos deuses,
que paravam o Sol e a Lua, a fim de melhor realizarem suas proezas. A noite
percorre o céu envolta num véu sombrio, sobre um carro atrelado com quatro
cavalos pretos, seguida do cortejo de suas filhas, as Fúrias, as Parcas.
Imola-se a esta divindade ctônica uma ovelha negra (Chevalier, 2012)".
A segunda estrofe é o
enlace pueril dos casais apaixonados – “Mãos em mãos travadas/Animadas,/Vão
aquelas fadas/Pelo ar;/Soltos os cabelos,/Em novelos,/Puros, louros, belos,/A
voar”. Aproxima-se do lirismo de Casimiro, no tocante à presença do tom
infantil nas ações, totalmente desprovidas de conteúdo sensual.
Similar ao poema de
Casimiro exposto acima, a terceira estrofe discorre sobre as agruras do destino
do homem. Mais uma vez, a circunspecção do tema não resvala para o niilismo tão
caro a Machado tampouco para os devaneios ególatras da segunda geração
romântica, o afamado Mal do Século. Às agonias contrapõem-se os sonhos e as
utopias, ainda que tais elementos não sejam suficientes para sanar os
percalços: sonhos e utopias se esfumaçam com o passar do tempo. Os poetas, no
entanto, dirimem a gravidade disso. Na quarta estrofe, as vidas perdidas pelo
desengano são comparadas a pombas malferidas. A simbologia da pomba submete-se
a um vigoroso sentimento religioso. No Novo Testamento, a pomba representa o
Espírito Santo, um dos elementos da Santíssima Trindade. Na mitologia grega, a
pomba era a ave que Afrodite trazia próxima a si e espelha a realização amorosa
que o amante oferta ao objeto de desejo. Pureza e desejo são as linhas de
tensão presentes na pomba; o poema, porém, não alude ao quinhão sensual, visto
que os adjetivos elencados carecem desse apelo: vivas, fagueiras, louros,
puros. O poema se fecha valorizando o sono como saída para os óbices da vida,
retomando a figuração da função onírica como espaço para a expressão ou a
realização de um desejo reprimido, na visão freudiana.
Machado aspira, nesta
estrofe, à valorização do sono como um anseio de retomada de um estado puro
anterior e dota o ato de dormir com componente ativo, chamando-o de horas
vivas.
Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de
ser internado...
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