Procuramos algo que nos preencha e nos
faça felizes, porém, não entendemos que o que pode nos trazer felicidade é o
simples ato de nos percebermos, de entrar em contato conosco, de nos
preenchermos de nós mesmos. Não entendemos que somos suficientes em nós, o
resto é complemento, são coisas que vêm para dar um acabamento. O que está fora
de nós são apenas elementos do nosso cotidiano que fazem com que nos sintamos
parte deste mundo, mas, que não representam a nossa essência.
Recentemente, li um texto de uma pessoa que tinha sido diagnosticada com
uma metástase e estava ali expondo sua experiência. Essa pessoa viveu a maior
parte da sua história de maneira plena e estava agradecida pela vida que estava
tendo. Foi então que refleti sobre o quanto não nos damos conta de que estamos
vivos. OK, nós respiramos, nos alimentamos, dormimos, trabalhamos, etc., mas, o
quão importante é isso para nós? Que valor damos à vida? Parece que nenhum.
Somente paramos para pensar nela quando estamos prestes a morrer ou quando ouvimos
isso de alguém ou, ainda, quando convivemos com uma pessoa com um histórico de
morte em iminência. É exatamente o que está acontecendo aqui. E o que acontece
se morrermos de repente? Nesse caso, naturalmente, não há mais tempo para nada,
a vida acaba sem que possamos refletir sobre ela. Acaba e pronto.
Por isso, vou
introduzir aqui um discurso que estamos meio cansados de ouvir, mas, mesmo
assim, eu acho que merece ser reproduzido: cada detalhe de nossas vidas é
importante, cada sensação é primordial, cada movimento do peito puxando o ar é
essencial. Sinceramente, é decepcionante o modo como escolhemos viver. Vamos
caminhando de maneira banal, deixamos as coisas significativas passarem, não
percebemos, de verdade, o que é valioso para nós. Não notamos a nós mesmos. É
como se estivéssemos vivendo à velocidade da luz, passando despercebidos pela
estrada que nos leva a ser o que somos, só que não damos a mínima. O tempo todo
estamos correndo atrás de alguma coisa que não sabemos direito o que é. Não há
profundidade nas nossas atitudes, não há prioridades. Procuramos algo que nos
preencha e nos faça felizes, porém, não entendemos que o que pode nos trazer
felicidade é o simples ato de nos percebermos, de entrar em contato conosco, de
nos preenchermos de nós mesmos. Não entendemos que somos suficientes em nós, o
resto é complemento, são coisas que vêm para dar um acabamento. O que está fora
de nós são apenas elementos do nosso cotidiano que fazem com que nos sintamos
parte deste mundo, mas, que não representam a nossa essência.
Sendo redundante, afirmo: a morte é
definitiva. Por que eu estou expressando algo que é inquestionável? Porque
temos a tendência de nos esquivar da certeza de que vamos morrer, ou seja,
embora saibamos que a morte é efetiva, não aprendemos a lidar com ela. A
consequência disso é: se não falamos sobre o assunto morte, acabamos nos
perdendo quanto ao tema vida. O pensamento é simples, ora, se vamos morrer, se
tudo isso vai acabar, por que não fazemos do nosso modo de viver algo que seja
exuberante, excepcional, sensacional? Infelizmente, não nos damos conta disso,
não observamos que a vida é levada de maneira vã, nós não a notamos. Ela passa
batido e a gente flutua na nuvem do acaso. Que papelão! “Ah, mas, a minha vida
é muito boa, eu jogo bola, eu tenho uma namorada, eu vou me casar, eu tenho
filhos, família, um carro, etc.”. A questão é o quanto essas coisas são
importantes para se viver inteiramente. A vida não deve ser representada pelo o
que temos, mas, sim, pelo o que somos. Ah! Você deve estar pensando: “Lá vem
ela com essas frases feitas.”. Sim, é uma frase feita, feita por alguém bem
inteligente, alguém que percebeu a essência da coisa. O material vai ficar, a
gente não leva nada quando morre, nesse caso, as coisas materiais não merecem
ter o mesmo peso que os valores intangíveis, por razões óbvias, elas são
passageiras, são perecíveis, não preenchem o que é vital. Uma vida completa vem
de dentro. É o que guardamos no nosso íntimo; é como nos relacionamos com as
pessoas; é a preservação do bom caráter; é o desejo de ser bom. É a realização
pessoal; é o amor que extravasamos; é a capacidade de superar as dificuldades;
é a bondade, o respeito que exalamos.
Por todas essas razões, não podemos mais deixar a vida simplesmente se
esvair. Pensemos nela direito, com legalidade e respeito. Não a tratemos
vilmente. Façamos isso agora, longe da beira da morte, tomemos uma atitude
enquanto estamos bem, com ar nos pulmões, com sangue correndo pelas veias.
Lembremos de que estamos vivos. Pode parecer clichê isso que acabei de dizer,
mas, é necessário alertar para esse fato, o de que estamos vivos. Olhemos para
vida de um jeito inspirador. Sejamos completos no nosso viver. Façamos da nossa
existência algo que valha à pena.
DOROTY SANTOS
Paulistana, bacharel em Letras. Secretária e aventureira no mundo dos escritos..







