"O sertanejo é antes de tudo um forte”( EUCLIDES DA CUNHA EM OS SERTÕES,2000,p.16) .
EIS, QUE A LITERATURA ...
É um universo repleto
de encantos, traz consigo os mais diversos “olhares” que possibilitam a
realização de analises, questionamentos e denúncias da realidade vivida por
grupos populacionais dentro da sociedade, avaliando aspectos econômicos,
culturais, políticos, sociais e tantos outros que são essenciais para
compreensão de uma época, bem como das pessoas nelas inseridas. Surge, o
Neo-Realismo que dá nova dimensão ao estilo Realista e ao romance regionalista
brasileiro. Retrata o nordestino, os problemas como a seca, a migração, as
dificuldades enfrentadas pelo trabalhador rural dependente do campo para
produzir seu sustento.
QUEM É RAQUEL DE
QUEIROZ?
A escritora,
romancista, contista Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Capital do Ceará em
1910.Foi membro do Conselho Estadual de Cultura do Ceará em 1917, foi para o
Rio de Janeiro, junto com a família que procurava fugir da seca que desde 1915
atingia a região.Mais tarde a romancista iria aproveitar o tema para escrever
seu primeiro livro “O Quinze”.Em 1932 faz parte do partido Comunista, porém
entra em divergência com o grupo e decide abandonar a militância política,
sendo presa em 1937 acusada de comunista durante o período do governo de
Getúlio Vargas. Ela morreu em 4 de novembro de 2003.
QUANDO FOI PUBLICADO?
O Romance "O
QUINZE"publicado em 1930 surpreende por ser uma obra de estreia e se torna
referência para ficção nordestina, exatamente pela riqueza de detalhes e pela
simbologia em cada palavra. Com uma linguagem simples, e autentica os diálogos
acontecem naturalmente, sem “abusos” de palavras rebuscadas. O importante são
as expressões contidas, a descrição original que cada personagem exprime suas
“vozes” em meio ao cenário de aflição de tempos tão sofridos. Trazendo
passagens típicas do homem nordestino, sua fé e crença mesmo vivendo com tanta
incerteza não apenas do futuro, mas do próprio presente.
O ENREDO DE "O
QUINZE" VAI ALÉM...
Mostra a vida de
personagens que ao longo de períodos de tantas provações, continuam com a fé
determinados em acreditar nos dias melhores que ainda virão, como se aqueles
tempos tão dolorosos fosse apenas mais um de tantos outros que já enfrentaram.
Falar do homem nordestino é descortinar “sentires” desse que já traz na
essência uma grande relação com tudo à sua volta, a terra, os animais, a
caatinga, o sol escaldante, mas não é uma relação superficial e sim de raízes,
porque o campo não é unicamente referencial e sim sua vida.
Assim, o enredo subdivide-se basicamente em duas
linhas: A primeira, os fatos estão voltados para família do vaqueiro Chico
Bento e também na relação afetiva entre Vicente, um trabalhador do campo e
Conceição -sua prima- mulher dedicada aos estudos, vista como bem a frente de
seu tempo exatamente por estabelecer metas em sua vida para que esta fosse
diferente da vida de tantas outras mulheres, que nos tempos difíceis da seca
não tinham outra opção a não ser seguir suas famílias. O mundo de Vicente e
Conceição eram diferentes, ele escolheu o campo ela escolheu a cidade, e pela
“carência” de diálogo foram podados de viver um amor, que poderia ter sido o
refúgio para ambos naquele período temeroso constituindo família.
A segunda parte, temos cenas doloridas da árdua
marcha do vaqueiro Chico Bento de sua mulher Cordulina, seus cinco filhos e da
cunhada Mocinha-que os deixa em certa parte do caminho-. A seca os obriga a
abandonar a fazenda onde moravam e de onde até então tirava o alimento de toda
família.Vendendo o pouco que restava para comprar mantimento e uma burra, para
longa de travessia no sertão de extremo sol ardente: E apontava para uma vaca
pintada de preto e branco, que, magra e quieta à beira da estrada parecia
esperar a família fugitiva para derradeira despedida.
"E apontava para uma vaca pintada de preto
e branco, que, magra e quieta à beira da estrada parecia esperar a família
fugitiva para derradeira despedida. Cordulina recomeçou a chorar, o próprio
Chico Bento passou rapidamente a manga pelo rosto." (QUEIROZ, 2002, p.36)
Nesse cenário típico do retirante que tem de
abandonar suas casas, em nome da “sobrevivência” arriscando a vida em outros
lugares desconhecidos, ou dos quais ouviram apenas falar, Chico Bento tinha em
mente ir para o Norte trabalhar na extração da borracha, como se ao agarrar-se
a esse ideal, a chama de esperança não se apagasse. Em sua saída houve
instantes que seus sentimentos misturaram em revolta, outros em angustias,
dormindo várias noites ao relento, em taperas encontradas no caminho, porém
sabendo que assim como ele e sua família existiam outros na mesma situação,
cuja estrada parecia não ter fim, e sim crescendo como cresciam as dores
físicas e interiores.
"[...]só algum juazeiro ainda
escapo à devastação da rama; mas em geral as pobres árvores apareciam
lamentáveis mostrando os cotes dos galhos como membros amputados e a casca toda
raspada em grandes zonas brancas."(QUEIROZ, 2002p.13).
Mostrando de tal forma,
o sertão agredido por dias difíceis, o sol abrasador que queima plantas,
secando rios, tendo como consequência a fome, onde o homem faz o que pode para
sobreviver um dia após o outro, animais morrendo pela falta do alimento e de
água, paisagens inteiras transformadas em um “cemitério a céu aberto”. Cena
triste da família de Chico Bento que aos poucos se desfaz na marcha, Mocinha
sua cunhada consegue trabalho como ajudante de cozinha e vender na estação, ela
fica e o restante segue depois Josias morre envenenado ao comer mandioca crua:
“Lá se tinha ficado Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de
dois paus amarrados feitas pelo pai” (QUEIROZ,2002 p.61).
É ESSENCIAL: CAMPO
VERSUS CIDADE
Ressaltar, cenário
urbano que está presente em proporções menores centrando-se no campo de
concentração, onde se alojavam os retirantes, uma espécie de abrigo coletivo
todos que ali chegavam partilhavam da mesma angustia envolta na seca, na
miséria verdadeiras multidões, acomodando o corpo cansado como dava:
"E estendendo a
vista até muito longe, até os limites do campo de, onde os fogos luziam mais
espalhados, o vaqueiro sacudiu a boca uma mancheia de farinha que lhe ofereceu
a mulher [...] -Posso muito bem morrer aqui; mas pelo menos não morro
sozinho(QUEIROZ" (2002, p.87).
"E estendendo a
vista até muito longe, até os limites do campo de, onde os fogos luziam mais
espalhados, o vaqueiro sacudiu a boca uma mancheia de farinha que lhe ofereceu
a mulher [...] -Posso muito bem morrer aqui; mas pelo menos não morro
sozinho"(QUEIROZ, 2002p.87).
Em meio a tudo,
tantas pessoas misturadas em seus rostos perdidos, envoltos a tanta sujeira,
corpos emagrecidos, todos no mesmo retrato vivo de maus tratos da condição de
vida na qual se encontravam. Conceição ajudava no campo de Concentração como
podia, fora ela quem encontrou os compadres, tão diferentes de outrora,
irreconhecíveis, buscando de toda forma ajudá-los a amenizar tal sofrimento. Conseguindo
passagens para estes irem para São Paulo lugar desconhecido, porém o único que
ainda lhes trouxe alguma ilusão de vitória, não sabia o que os esperavam
desejavam apenas “fugir” de tamanha situação para não precisar ver todos os
dias pessoas morrerem, adoecerem e mesmo tantas gritos de crianças famintas.


As desgraças assolavam vidas, mas o homem não desistiu e como em Vidas Secas de Graciliano Ramos, que retrata a família de Fabiano que também tem de sair em retirada,o maior antagonista é o clima, cuja seca dá ao sertão e a seu povo tanta amargura. Obrigando-os a deixar tudo para traz procurando a cidade em nome da sobrevivência. E assim, o vaqueiro Chico Bento ao partir para as terras distantes não viriam quando as primeiras chuvas caíram em Quixadá fazendo pulsar novas expectativas, trazendo alegria as vidas aflitas e a paisagem agora aos poucos verdejavam depois de tanto tempo sem “vida”.Essa mesma seca que faz com que Vicente chegue a se emocionar com os primeiros pingos de chuva que caem sobre seu teto, sentindo neste instante a confirmação de que nem tudo estava perdido e que mesmo nas aflições a vida no sertão é um constante recomeço.
UM ROMANCE ... VÁRIAS REFLEXÕES, PARA ALÉM DA FICÇÃO.
(Matéria em homenagem ao meu Mestre, Guru e um ser humano iluminado, Professor Frediramar Freitas, da Escola Técnica Estadual Arlindo Ferreira dos Santos, que me mostrou o Quinze dessa magnifica e simples, Raquel de Queiroz, como uma das grandes obras da nossa literatura.)