O que um menino de 3 anos tem a ver com uma guerra?
Como chegamos a esse ponto?
Por que o mundo inteiro assiste
impassível a essa tragédia humana?
Na última semana o
mundo recebeu um soco no estômago. Por um momento, ficaram sem ar todos aqueles
que viram a foto do pequeno garoto sírio deitado de bruços na areia da praia,
as ondas cobrindo seu rosto sem vida. Aylan
Kurdi era um menino sírio de 3 anos que, como milhares de outras crianças,
tentava fugir dos horrores da guerra com sua família. Indefesos e encurralados
entre as atrocidades do Estado Islâmico e o mar, atiraram-se às águas em
desespero, tentando chegar à Grécia. O barco em que estavam virou e o pai de
Aylan, Abdullah Kurdi, não conseguiu salvar a família. Ele perdeu a esposa e os
dois filhos na tragédia. Sobre o momento em que o barco virou, ele disse: “meus
filhos escorregaram das minhas mãos”.
Mas o que um menino de 3
anos tem a ver com uma guerra? Como chegamos a esse ponto? Por que o mundo
inteiro assiste impassível a essa tragédia humana? Na época da segunda guerra
mundial, o pastor alemão Martin Niemöller conseguiu exemplificar bem o modo
como os nazistas conseguiram controlar e subjugar tantos grupos étnicos e
políticos, quase sem resistência.
"Quando os nazistas
levaram os comunistas, eu me calei, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu me calei, porque, afinal, eu não
era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei,
porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu também
não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram,
não havia mais quem protestasse por mim."
Sempre foi assim na história da humanidade. Somos membros de uma
mesma espécie, mas tomados por infinitas paranoias que nos aleijam como
sociedade. Basta manter um grupo de pessoas em um lugar confinado, não importa
quem elas sejam, que em pouco tempo serão formados subgrupos e cada um desses
subgrupos encontrará motivos para odiar o outro. Vivemos
à mercê dos nossos respectivos subgrupos. Temos as mais infinitas subdivisões
possíveis: ideológicas, religiosas, políticas, étnicas, regionais, comportamentais
e até sexuais e esportivas. À medida que um subgrupo odeia o outro, mais e mais
nos afastamos de nossa humanidade. Não é de espantar que o
lema dos romanos na antiguidade era “Divide et Impera”, dividir para governar.
Nós nos preocupamos tanto com nossos motivos para odiar o subgrupo vizinho que
nos esquecemos de quem realmente somos enquanto seres humanos. Enquanto isso,
aqueles que nos dividiram nos governam sem que percebamos! E a pilha de corpos
não para de crescer.
Edmund Burke estava coberto de razão quando afirmou que “Para que
o mal prevaleça, basta que os bons não façam nada!”. Por sua vez, o alemão
Dietrich Bonhoeffer disse com muita propriedade que "O silêncio diante do
mal é o próprio mal!". Nada está sendo feito quanto à ameaça do Estado
Islâmico, o mundo assiste em silêncio, inerte, e assim, o mal prevalece,
floresce e mata! Mata milhares, dia após dia. Aylan Kurdi virou um símbolo dessa tragédia migratória e da tragédia maior que
são a guerra e o terrorismo, mas, iguais a ele, milhares de outras crianças já
perderam suas vidas. E enquanto nada for feito, milhares de outras crianças
ainda estão marcadas para morrer em função da guerra, do ódio, do terror e da
indiferença.
Mas o que nós vamos fazer
a respeito?
Nada.
Nós não somos sírios.
Nós não somos refugiados.
Nós não somos pobres.
Nós não somos humanos...
THIAGO DE MELO
Um passo de cada vez..
“É fácil trocar palavras, difícil é interpretar os silêncios”
(Fernando Pessoa)


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