REALIDADE EDUCACIONAL EM PRETO E BRANCO

Pequena reflexão sobre a ineficácia de nossas escolas no processo de formação de leitores.
Notícia publicada em meados do mês passado chamou minha atenção.http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=82384), pois a mesma relata que dois livros de colorir da editora Sextante estavam próximos de atingir a marca de um milhão de exemplares vendidos. Nada contra o livro de colorir e seus adeptos, o que me intrigou foi o fato de, num país de não leitores, de mais de cinquenta milhões de analfabetos totais e funcionais segundo dados do Instituto Paulo Montenegro publicados em 2012

(http://www.ipm.org.br/ptbr/programas/inaf/relatoriosinafbrasil/Paginas/inaf2011_2012.aspx) justamente um livro sem palavras vender tanto.


           O problema não é o livro e quem o compra mas sim nossas escolas e suas imensas dificuldades de formar leitores. O cerne da questão é a falta de políticas públicas eficientes para construir e manter uma instituição escolar que atenda às reais necessidades da população. Os números são emblemáticos, todos eles, desde os que mostram os não alfabetizados até a quantidade de livros vendidos, eles servem para nos alertar que a educação está em crise, há tempos, e que nada parece ser feito para mudar isso. Num país cujo lema é “Pátria Educadora” é preciso rever métodos e prioridades se realmente se quiser fazer algo que vise construir uma sociedade melhor, mais justa, menos violenta e menos corrupta. Enquanto os noticiários sofrem uma enxurrada de opiniões sobre maioridade penal, em que se discute se deve-se ou não prender e punir adolescentes criminosos a escola parece nem existir, sendo pouco citada e não aparecendo sequer como uma opção para a diminuição da violência. Pois seria muito mais interessante pensar, refletir e debater se, no lugar de prender um menor infrator, houvesse para ele uma escola decente, que se propusesse a oferecer a ele a oportunidade de se construir enquanto cidadão. Não seria preciso prender se estes menores estivessem na escola. Já no século XIX o escritor francês Victor Hugo dizia que quem abre uma escola fecha uma prisão. 



(Retirado de: http://www.juniao.com.br/mais-educacao-menos-prisao-dona-isaura-educacao-prisao/)

        Penso que enquanto a escola servir, em muitos casos, como depósito de crianças e adolescentes, que vão “estudar” porque não podem ficar em casa sozinhos ou pelo risco da família ser denunciada ao conselho tutelar, que enquanto a mesma escola se mantiver com sua estrutura semelhante a um presídio, no que diz respeito à organização do seu espaço físico, em sua organização hierárquica, com seus sistemas de vigilância e punição (quem quiser é só ler Vigiar e Punir do Michel Focault para ver como isso se dá na prática), dificilmente as coisas vão mudar e, infelizmente, continuaremos a perder tempo discutindo em vão questões que não são as mais relevantes e que não efetivarão mudanças significativas. Enquanto isso, como dizem desde o ano passado alguns comentaristas esportivos sobre a falência do futebol brasileiro, gol da Alemanha!


25 ANOS SEM CAZUZA...O TEMPO NÃO PÁRA...


“QUEM FOI TEMPERAR O CHORO E ACABOU SALGANDO O PRANTO? ” LEANDRO GOMES DE BARROS – 150 ANOS DE POESIA

Num tempo de estranhezas, esquecimentos e instantaneidades, a poética de Leandro Gomes de Barros, desprovida da erudição acadêmica, assume o pódio que lhe é de direito, nos revelando a essência de um Brasil puro e verdadeiro.

De tempos em tempos somos surpreendidos por uma explosão de vida. Sem nos darmos conta, uma aparece e nos encanta, arrebata, congela todo o conhecimento outrora adquirido, e só pensamos naquela música, soneto, pintura, um acorde de violino ou o rasgo de uma gaita. Anoitecemos e amanhecemos com aquilo na cabeça. Temos até medo de adentrarmos nela para conhece-la melhor, participar, olhar de mansinho sobre o privilégio de ser só o que é: grande! Leandro Gomes de Barros é vida! Este homem, que viveu na peregrinação e pousos da escrita popular é hoje considerado o mais notável e importante entre os poetas. Nasceu em 1865, no dia 19 de novembro, na cidade de Pombal, sertão paraibano. Aos dez anos começou a escrever e foi o pioneiro na escrita e edição de histórias em folhetos. Escreveu, editou, publicou, distribuiu e vendeu sua própria produção. Teve sua própria tipografia. Muitos foram as autoridades das letras e da história que falaram sobre ele. Câmara Cascudo escreveu: “ Viveu exclusivamente de escrever versos populares, inventando desafios entre cantadores, arquitetando romances, narrando as aventuras de Antônio Silvino, comentando fatos, fazendo sátiras. Fecundo e sempre novo, original e espirituoso, é o responsável por 80% da glória dos cantadores atuais” – Vaqueiros e Cantadores – Ed. De Ouro. Seu espólio literário foi vendido e muitos usaram de sua poesia e o plagiaram. Alguns se apropriaram de seus versos a ponto de mudarem o acróstico do fim da história. Foi o primeiro poeta a lutar por direitos autorais no Brasil. 
      Em 1976, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil na edição do dia 9 de setembro: “Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo o resultado a má informação porque o título, a ser concedido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do País, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de “Ouvir Estrelas”. ... E aqui desfaço a perplexidade que algum leitor não familiarizado com o assunto estará sentindo ao ver defrontados os nomes de Olavo Bilac e Leandro Gomes de Barros. Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesa média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidas nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão.

... Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro. ” Bebeu na fonte do poeta ninguém menos que Ariano Suassuna, que no Auto da Compadecida expõe o cavalo que defecava dinheiro. Suassuna o trata de filósofo numa de suas últimas entrevistas em que o repórter pergunta de sua crença ou não em Deus. “ – Eu estaria lascado! se não acreditasse em Deus”. Disse o escritor ao recitar um ícone da coletânea de Leandro: “Por que Existem o Mal e o Sofrimento Humano? Se eu conversasse com Deus/ Iria lhe perguntar:/ Por que é que sofremos tanto/ Quando se chega pra cá? / Perguntaria também/ Como é que ele é feito/ Que não dorme, que não come/ E assim vive satisfeito. / Por que é que ele não fez? A gente do mesmo jeito? Por que existem uns felizes/ E outros que sofrem tanto? / Nascemos do mesmo jeito, / Vivemos no mesmo canto. / Quem foi temperar o choro/ E acabou salgando o pranto? ”
Leandro Gomes de Barros é patrono da cadeira número um da ACADEMIA BRASILEIRA DE LITERATURA DE CORDEL. Encontrou a sua grande e única certeza irremediável no dia 4 de março de 1918, em Recife.
Neste ano 2015 celebramos os 150 anos de nascimento do poeta.

ANGELO RAFAEL

Artista Plástico, Designer e neo Escritor. Autor dos livros "Os Homens do Couro - memórias poéticas de um ofício" e "A Casa das Bocas Pintadas de Encarnado". Atualmente está Diretor do Museu Assis Chateaubriand da Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande, PB..



30ª SEMANA ESTUDANTIL