Oi,
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> Eis minha diatribe quinzenal para a página 2 do Estadão:
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> Travessuras bilionárias
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> de Juquinha e Jucazinho
>
> José Nêumanne
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> Dilma demitiu 28 por suspeita de corrupção. Quantos destes estão sendo
> processados?
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> Suas endiabradas traquinagens, muitas das quais impublicáveis, fizeram
> do travesso Juquinha o protagonista-mor de piadas de botequim. Mas o
> simples acréscimo do epíteto “da Valec” faz corar nosso assunto
> habitual de mesas de bar como se fosse um inocente coroinha carola. A
> Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S. A. está longe de ser um
> chiste: no ano passado, a empresa foi aquinhoada no Orçamento da União
> com R$ 5,1 bilhões, menos de um terço dos mais de R$ 17 bilhões de que
> ora dispõe para construção ou concessão de obras ferroviárias. A joia
> mais cara da coroa é a Ferrovia Norte-Sul, que ligará a Amazônia ao
> Sudeste por trilhos, com mais de 3 mil quilômetros de extensão.
> Conforme a IstoÉ, o Ministério Público, baseado em perícia da Polícia
> Federal, acusou Juquinha e outros diretores da estatal e empreiteiros
> de terem desviado R$ 71 milhões num trecho de 105 quilômetros.
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> Jucazinho não tem um apelido tão popular como o de Juquinha, mas esse
> simpático substantivo próprio no diminutivo lhe garantiu sombra e água
> fresca ao longo dos governos federais recentes. Juquinha não mais
> usufrui as vantagens de pertencer à Corte e Jucazinho também caiu em
> desgraça: foi demitido da direção da Companhia Nacional de
> Abastecimento (Conab), acusado de ter autorizado – sem permissão e com
> verba que não poderia ser usada para o fim a que foi destinado – um
> pagamento para suposta empresa de fachada. Oscar Jucá Neto foi
> derrubado após denúncia de outra revista semanal, a Veja, sucumbindo,
> enfim, a pesado bombardeio com fogo concentrado em sua cadeira
> partindo de canhões poderosos da República. A começar do próprio
> chefe, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, aliado notório do
> chefão do PMDB nacional, o vice-presidente Michel Temer. Confirmando a
> lógica implacável do governo Dilma, rola pelo menos uma cabeça coroada
> depois de uma denúncia – a conta no Ministério dos Transportes chega a
> 27.
>
> Guindado do anonimato pelo ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto
> (PMDB), Juquinha tem origem política em Goiás e reclama que seu
> envolvimento no escândalo lhe frustrou o sonho de governar ou ser
> senador por seu Estado de origem. Não é uma gracinha?
>
> Jucazinho, ao contrário, não tem carreira nem pretensões políticas.
> Irmão mais novo de Romero Jucá – pernambucano que fez fortuna em
> Roraima, elegendo-se para o Senado e se tornando figurão de
> administrações federais teoricamente adversárias, de Fernando Henrique
> e Lula da Silva –, sempre atuou sob a vasta e confortável sombra
> fraterna. Não teve de fazer como Juquinha, forçado a mudar de legenda
> para ficar no comando da locomotiva burocrática: do PMDB, pelo qual se
> elegeu deputado federal em Goiás em 1995, para o PSDB de Henrique
> Meirelles e para o PL, que virou PR, tornando-se correligionário de
> Alfredo Nascimento e de toda a cúpula do Ministério dos Transportes.
> Para manter a “boquinha”, Jucazinho só continuou sendo irmão do
> “Jucazão”.
>
> Mas tantas Jucazinho fez que nem o extraordinário talento de
> prestidigitador do mano mais velho logrou evitar sua degola. Só que o
> moço tombou de metralhadora em punho e atirando nas páginas da mesma
> Veja que o desgraçou. À revista que o delatou ele denunciou a
> existência de um esquema de corrupção e desvio de recursos na Conab
> ainda maior que o do Departamento Nacional de Infraestrutura de
> Transportes (Dnit). À cabeça do esquema estaria, segundo garantiu, o
> próprio ministro Wagner Rossi, do PMDB do inimigo. Como sói ocorrer em
> denúncias do gênero, a verrina não foi acompanhada de uma provinha
> qualquer. Nada, nada, nada! Diante disso, o ministro veio a público e
> acusou o irmão do líder de querer transformar a própria queda em caso
> político, “apenas uma retaliação”.
>
> É no que dá o Brasil estar entregue a um regime de governo híbrido
> tocado na base da “governabilidade”: isso implica o loteamento de
> cargos importantes da administração federal (até mesmo Ministérios)
> entre os grupos que controlam os partidos de apoio ao governo, que os
> coopta com cargos para votarem a favor das próprias pretensões.
> Juquinha e Jucazinho protagonizam a tragédia da corrupção tolerada. No
> primeiro caso, a Procuradoria da República, cuja função é zelar pelo
> bom uso do patrimônio público, valeu-se de laudo da Polícia Federal,
> subordinada ao Ministério da Justiça, para acusar o burocrata que
> comandou o destino de um enorme quinhão da poupança nacional de a
> estar dilapidando – acusação que ele tratou com desdém: “No Brasil é
> um remando pra frente e dez remando pra trás”.
>
> Ao se defender da delação do ex-subordinado, o ministro da Agricultura
> apelou para a lógica aristotélica elementar: se na Conab só “tem
> bandido”, conforme disse o irmão do líder do governo, por que ele
> ficou lá um ano e pouco e então só tinha elogios a fazer? Como
> escreveria Nelson Rodrigues, “batata!”
>
> Restam, contudo, outras dúvidas a levantar sobre Juquinha, Jucazinho e
> todos os demitidos do Ministério dos Transportes. Que condições tem
> Alfredo Nascimento de reassumir sua cadeira no Senado se ele teve de
> abandonar a pasta acusado de participar de fraudes? Se Romero Jucá se
> “solidarizou” com Wagner Rossi contra a investida de Jucazinho, por
> que pediu ao ministro que mantivesse o maninho no cargo de assessor?
> Que punição administrativa mais rigorosa espera os demitidos por
> corrupção? Que ações moverá a presidente Dilma contra funcionários que
> traíram sua confiança?
>
> O PR, dizem, está em pé de guerra contra Dilma, mas a guerra é
> congelada: não se ouviu um único disparo verbal. E o PMDB garante que
> toda essa confusão em torno da Conab não passa de tentativa para
> desalojar “Jucazão” da liderança do governo no Senado, pretendida pelo
> PT. Que coisa, hein?! E o cidadão, que, nesta democracia, só tem o
> direito de pagar e o dever de calar? Ora, o cidadão que se dane!
>
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> (Publicado na Pág. 02A do Estado de S. Paulo quarta-feira 3 de agosto de 2011)
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