Silenciosamente, assim como viveu, escritor pernambucano morreu no dia
1º de agosto, aos 87 anos. Um homem de poucas palavras faladas, mas muitas
escritas. Poucas aparições, mas muitos admiradores.
Banho de açude, cinema, futebol
(Torcedor do Santa Cruz) e gibi. Paixões simples de uma infância interiorana
moldaram o imaginário de um jovem aspirante a escritor, morador de São Bento do
Una, Agreste de Pernambuco, na década de 1940. Com alguma facilidade, Gilvan de
Souza Lemos (1928-2015) criava pastiches de heróis norte-americanos, decalcava
traços da coleção de revistinhas e pinçava referências de filmes de faroeste.
Por causa do pouco estudo (só frequentou a escola até o terceiro ano da
educação primária), passou a se interessar por literatura somente por
insistência da mãe e da irmã. Aceitou ler O conde de Monte Cristo, de Alexandre
Dumas, e se apaixonou pelo universo das letras. A partir de então, passou a
consumir e, aos poucos, produzir ficção. Aos 17 anos, tímido e discreto (como
seria até o fim da vida), enviou para uma revista um de seus contos junto a uma
carta. Nela, pedia para os editores serem complacentes caso decidissem rejeitar
o texto. A negativa deveria sair com o nome de um pseudônimo, para não torná-lo
alvo da “língua ferina” do povo. A publicação da narrativa curta,
posteriormente premiada, foi o primeiro momento de glória. Foi o incentivo para
a escrita do primeiro livro de fôlego, logo destruído pelo autor, por achar o
material de baixa qualidade. Aos 21, em 1949, mudou-se para o Recife, onde
vivia em uma pensão.
“Comecei a imaginar um romance, tinha ele na cabeça, mas faltava máquina de escrever. Foi quando consegui comprar uma, parcelada em prestações”, dizia Gilvan. No quarto apertado, colocava a nova aquisição equilibrada em uma caixa de sapato, em cima da cadeira. Em um mês e 17 dias, escreveu Noturnos sem música, primeiro romance publicado, vencedor de prêmio, mas ignorado pela crítica local. Era o começo de uma longeva carreira literária, de 25 obras editadas, algumas por grandes editoras nacionais.
“Comecei a imaginar um romance, tinha ele na cabeça, mas faltava máquina de escrever. Foi quando consegui comprar uma, parcelada em prestações”, dizia Gilvan. No quarto apertado, colocava a nova aquisição equilibrada em uma caixa de sapato, em cima da cadeira. Em um mês e 17 dias, escreveu Noturnos sem música, primeiro romance publicado, vencedor de prêmio, mas ignorado pela crítica local. Era o começo de uma longeva carreira literária, de 25 obras editadas, algumas por grandes editoras nacionais.
Recentemente, com a idade avançada, Gilvan vinha se queixando da perda
de memória, motivo pelo qual passou a se dedicar apenas a contos. Ao amigo,
pesquisador e escritor Pedro Américo de Farias, queixava-se de ter “perdido o
gás” para escrever. “Há pouco tempo, ele me disse que andava relendo contos e
romances dele e estava muito surpreso. Imaginei que ele falaria coisas ruins,
que não escreveria mais aquilo. Perguntei o motivo, e ele disse: ‘São muito
bons, penso até que não fui eu que escrevi’.”
Ponto de encontro No convívio com outros autores e intelectuais, Gilvan encarnava uma persona de brincalhão, de homem afável, alternada com características de alguém recluso. Nas décadas de 1980 e 1990, era a grande sensação da Livro Sete (antiga livraria do Recife), consagrado ponto de encontro de escritores. Na calçada, um banco de apenas quatro lugares era disputadíssimo quando o escritor estava presente (ou seja, quase todos os dias).
Ponto de encontro No convívio com outros autores e intelectuais, Gilvan encarnava uma persona de brincalhão, de homem afável, alternada com características de alguém recluso. Nas décadas de 1980 e 1990, era a grande sensação da Livro Sete (antiga livraria do Recife), consagrado ponto de encontro de escritores. Na calçada, um banco de apenas quatro lugares era disputadíssimo quando o escritor estava presente (ou seja, quase todos os dias).
Para o amigo Nivaldo
Mulatinho, especialista na obra de Gilvan, por suas peculiaridades, o autor era
pessoa não muito fácil de se conviver. “Há episódios daquela época como quando
o escritor Josué Montelo se aproximou para conhecer Gilvan que, ao vê-lo, saiu
correndo. Depois, ele explicou que nunca tinha lido nada de Josué. Por isso,
queria evitar problemas. Foi muito engraçado”.
Acadêmico
tardio O banco da Livro Sete foi
batizado por Gilvan Lemos de “academia da calçada”. Isso porque o autor de
Emissários do diabo era magoado por ter fracassado em nas três primeiras
tentativas de ingresso na Academia Pernambucana de Letras. Ele só viria a
entrar para instituição em 2012. “Gilvan brincava ao dizer que ele já era mais
‘uma vaga’ na academia do que um candidato, pois já entraria muito velho. Essa
vontade de pertencer à APL era a maneira de homenagear São Bento do Una. Queria
deixar o povo feliz de ter um representante na academia”, comenta o editor da
extinta Livro Sete, Tarcísio Pereira. Quando a livraria fechou, Gilvan passou a
frequentar a Nossa Livraria, na Rua do Riachuelo, também no centro do Recife.
Sem medo de morrer "anônimo" Por causa
do silêncio da crítica em torno da primeira obra publicada, Noturnos e música,
Gilvan Lemos tomou atitude drástica. Passou a escrever somente para as próprias
gavetas. Foram precisos 12 anos para superar o episódio e submeter um novo
romance para publicação. Por conselho do amigo Osman Lins, enviou à editora
Civilização Brasileira o original de Emissários do diabo, considerada a
principal obra-prima, relançada em 2013 pela Companhia Editora de Pernambuco
(Cepe), junto com O anjo do quarto dia e Os olhos da treva. A grande
insistência de Osman, ciente da grandeza da obra do conterrâneo, era convencer
Gilvan Lemos a migrar para o Sudeste do país em busca de visibilidade, sob pena
de “morrer como escritor anônimo” no Recife. “Isso aconteceu um pouco com
Joaquim Cardozo, um grande poeta desconhecido no Brasil. A situação de Gilvan é
bem semelhante, os dois se parecem muito. Dois homens recatados, silenciosos”,
avalia o pesquisador Pedro Américo de Farias.
Para o editor Tarcísio Pereira, Gilvan não chega a ser um desconhecido, mas acredita em uma divulgação muito maior da obra, caso ele tivesse se mudado para o Rio de Janeiro ou São Paulo. “Mesmo ficando aqui na cidade, teve livros publicados por grandes editoras, como Globo, Civilização Brasileira, Record. Ele era conhecido no meio editorial a ponto de despertar interesse de grandes grupos. Quanto ao legado daqui para frente, é uma pena que Gilvan nunca se casou ou teve filhos e, portanto, não deixou ninguém da família para administrar a obra dele”. Um centro cultural - com biblioteca, museu e oficina de artes - está sendo construído em São Bento do Una, com a coordenação da sobrinha Lívia Valença, para preservar a memória do romancista.
Para o editor Tarcísio Pereira, Gilvan não chega a ser um desconhecido, mas acredita em uma divulgação muito maior da obra, caso ele tivesse se mudado para o Rio de Janeiro ou São Paulo. “Mesmo ficando aqui na cidade, teve livros publicados por grandes editoras, como Globo, Civilização Brasileira, Record. Ele era conhecido no meio editorial a ponto de despertar interesse de grandes grupos. Quanto ao legado daqui para frente, é uma pena que Gilvan nunca se casou ou teve filhos e, portanto, não deixou ninguém da família para administrar a obra dele”. Um centro cultural - com biblioteca, museu e oficina de artes - está sendo construído em São Bento do Una, com a coordenação da sobrinha Lívia Valença, para preservar a memória do romancista.
Vontade de ir embora
não faltou. Na primeira tentativa de mudança para o Rio de Janeiro, ainda no
início da carreira literária, Gilvan foi impedido por um tio. Em outras vezes,
a proximidade da família pesou contra. Segundo Américo, como tinha emprego
federal, ele podia ser transferido para qualquer parte do Brasil. “Essa chance
existiu. Ele se arrependeu de não ter ido. Era um pouco amargurado, pois tinha
dimensão da grandeza e da importância da própria obra. Ele tinha carreira
nacional garantida. Depois, ficou mergulhado em um provincianismo contra a
vontade dele. Acomodou-se”. Para Américo, há um grande descaso histórico com a
obra de Gilvan. “Acho que não é tarde. Ele nos deixa a obra como herança”. Por
ocasião da reedição das obras em 2013, o escritor Raimundo Carreiro classificou
Gilvan Lemos como “um dos mais importantes escritores de Pernambuco, integrante
da geração pós-regionalismo e anterior ao Movimento Armorial”.
documentário As poetas Cida Pedrosa e Mariane Biggio disponibilizaram gratuitamente na internet o recém-lançado documentário LEMOS, Gilvan, lançado em junho passado. Em meses de gravação, a equipe acompanhou a vida do escritor entre o Recife, onde morava, e São Bento do Una, no Agreste, cidade natal com a qual tem forte vínculo afetivo. No filme de 20 minutos, Gilvan fala sobre a capital pernambucana, a evolução da carreira, a relação com as duas cidades.

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