ATÉ QUANDO VAMOS SER ILUDIDOS PELA FUNDARPE?


Mais uma vez o Movimento Teatral e Cultural de Sertânia estão decepcionados com mais uma atuação da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco(FUNDARPE) mostrando que não tem nenhum compromisso com Sertânia, e com a Paixão de Cristo a tradicional Paixão do Sertão,que no ano passado foi aprovado no II Edital das Paixões, pasmem um projeto de 10 mil reais, e não pagaram, apesar dos desvios de 51 milhões de reais, que todo mundo já sabe... Vai ficar nisso mesmo, e a cultura do nosso estado sendo assaltada por pessoas que não tem nenhuma sensibilidade cultural, apenas financeira. Até quando vamos ser iludidos pela FUNDARPE?

Olha que essa história da FUNDARPE aqui em Sertânia vem de longe, em 1997 foi preciso colocá-la na justiça para poder receber dois mil reais e agora o pior, as pessoas que participam da Paixão do Sertão estão com muito medo de esse ano não ter a apresentação do espetáculo, que é encenando desde 1999, sem interrupções, pois o Projeto foi aprovado na primeira etapa e depois foi desclassificado, não sabemos os critérios, só lamentamos pelos prejuízos e pelas pessoas que participam (estudantes, comunidades de risco, etc.). Realmente a FUNDARPE sabe como incentivar para acabar com as Paixões do interior. É uma pena que um governo de tantos acertos como o de Eduardo Campos, tenha um órgão com tantas irregularidades em nome da “cultura” de nosso Estado... Lamentável, mas pensaremos nisso nas próximas eleições.

Associação Teatral de  Sertânia (ATAS)

LACAIO (Por Ivon Rabêlo)

O pai dela era. perfeito fantoche nas mãos das suas irmãs de carne. mais jovens do que ela, eram presas, desde muito atadas, ao mesmo fio umbilical da eternidade, quando se perceberam disputando beleza e segurança na avareza de sentimentos e fraternidade ausentes naquele covil. um inferno inteiro é muito gélido para descrever a candura de sua carência, mas apodrecer era estar convicta de tudo que lhe fazia falta, suportar calada, aquiescer contida e regurgitar o fel. aprendeu depressa a regra: sem exceções, largar o copo na hora exata e, sutilmente, cantarolar o hino dos senhores da guerra, a engrossar o coro dos contentes.

Chegando alegre das compras, depositou as sacolas em cima da mesa e esvaziou os bolsos. correu à geladeira e verificou se haveria espaço suficiente para mais garrafas. havia também o peixe de ontem, as terrinas com gelo e o frio de sempre. abriu espaço entre tudo e enfiou lá dentro os artifícios de sua morte. correu à vitrola e escolheu aquele de capa cinza dentre os vários discos de seu pai. pôs a tocar e sentou-se exaurida e trêmula no sofá, a ouvir os arranhões que faziam pulular seu peito e lamentar a interrupção de grandes trechos na música que a compelia à angústia, ao sentimento de impermanência e solidão, embora a casa já cheia de barulhos e correrias.

Era Natal. inúmeras crianças cacarejavam abusivamente, sobrinhos em corridas bruscas pela casa. as mães, solteiras irmãs suas vestidas de abandono, confabulavam na cozinha, discutindo sempre em voz alta onde deveriam servir os doces e os salgados, os quentes e os gelados, os líquidos e os sólidos, os moles e os brutos, os novos e os velhos, os corpos e os restos, os desejos e os pecados.

Nesta azáfama, Mariana, a primogênita, ergueu o copo e entregou outro ao pai, para brindarem juntos e sozinhos o instante de contentamento que sentiam em serem filha e pai, em terem laços e família, ouvindo juntos a voz grave do cantor que idolatravam unidos. a mãe nada falava, envolta na dança da época, retirada de sua cadeira amarga e convidada a bailar pelo corredor da casa, iluminada por rasgos de luz ora amarelos, ora verdes como seus olhos, ora azuis como seu passado, ora vermelhos como o sangue do Cristo, ora violáceos como o vinho que todas bebiam.

e bêbadas, todas, acusaram a filha e irmã de ladra, esquiva ladina a roubar-lhes a atenção do pai, o dominante e dominado, lacaio de suas próprias crias e companheiras, atiçando-lhe no espírito insano a desavença que se insurgia só, em instantes de arrebatamento ébrio. exausto, ele dirigiu-se ao quarto e quedou-se a ouvir os rumores da discórdia, do pleito acusatório que o faria engatilhar a arma e mirar a fronte entorpecida de sua filha mais velha.

[ao dormir, pensava ela, poderia reunir as imagens e conhecer os segredos que encobrem as honras manchadas, as febres intermitentes provocadas pelo incesto, as invejas despertadas pela humildade e clareza leves de um caráter reto. nesta noite sonharia, apesar de assolada por vívida dúvida em estar ou não atenta aos fatos que desencadearam o ato]

pressionada, ela negou inocência. inconformadas, suas irmãs verteram veneno em doses mortíferas. irracional, seu pai disparou a arma. um tiro e nada mais. nem mesmo o som do silêncio.

a música das esferas de chumbo tilintou em sua caixa craniana e ela adormeceu. nessa hora, um menino nascia em cama de palha seca. outras crianças gritavam assustadas e as mães calavam. a voz grave do cantor era interrompida há tempos pela agulha da vitrola, aos solavancos. os vizinhos nada ouviram e ela adormecera, após largar o corpo na hora exata e, precisamente contida, engrossar altiva o coro dos descontentes, ao murmurar contrita o hino dos senhores da guerra.



Ivon Rabêlo (1972) nasceu e vive em Sertânia/PE. Mestre em Literatura e Interculturalidade pela UEPB/Campina Grande-PB, atualmente é Professor de Língua portuguesa na Escola Técnica Arlindo Ferreira dos Santos em Sertânia.

A verdade pode ser muito cruel...

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Disponível em: http://hisbrasileiras.blogspot.com/search?q=o+cravo
 
Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".
 
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!
 
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/Tá com a cabeça quebrada/Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê.
 
A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, melodia de Heitor Villa Lobos e letra da Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
 
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichanos. A Sociedade Protetora dos Animais cairia em cima com processos.
 
Quem entra na roda dança, nos dias atuais. Não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil, estimula o sexo sem amor, a vulgaridade.
 
Ninguém mais canta: “Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão, vem de lá Seu Delegado, e pai Francisco foi pra prisão”. O pobre do Pai Francisco foi preso apenas por vadiagem, mas atualmente ficaria sob a suspeita de ser traficante.
 
Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não lembrar à garotada a desigualdade de renda entre os homens. Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado.
 
Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse que algum filho estava militando na causa da preservação do mico-leão-dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.
 
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do humor, da criatividade, da divertida sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
 
Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão-de-chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, “Orca, a baleia assassina” e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto-de-fome, pau-de-virar-tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
 
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
 
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra puta-que-o-pariu e o centroavante pereba tomar no olho-do-cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de “Jesus, Alegria dos Homens”, do velho Bach.
 
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro-funeral, o popular tá-mais-pra-lá-do-que-pra-cá,  já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".
 
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé-Junto.
 
Luiz Antônio Simas
(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio)

INTERROGAÇÕES pelos labirintos da INTERPOÉTICA

Se a internet nos condiciona, sem aprisionar, à mais dinâmica das leituras, VOCÊ consegue PENSAR no que está olhando na telinha enquanto raio da silibrina?

Se v. não se habituar a escrever, como se fosse escritor profissional impactante, tal Raimundo Carrero ou Ronaldo Correia Brito, tudo poderá tornar-se mais um ócio narcisista? Pense no profissionalismo à deriva de premiações, resenhistas e o que mais?

Dúvidas? Por que não?  Espaço em branco para intervenções...

Por que v. , da web instantaneidade, não procura compreender a poeticidade intersemiótica de O BONECO ÍNTIMO  do Paulo Fernando Craveiro? Literatura pelo fluxo de imagens cinematográficas em diálogo com o texto ficcional. PENSE mais.

Enquanto divagamos sem pressa, a retórica inflamável do Arnaldo Jabor zomba de nossa falência crítica? Além das dores do mundo e demandas reeleitorais?

É possível distinguir a dissipação comportamental das cognitivas dissonâncias?

Tudo pela suprema infelicidade dos paradoxos? E do que mais?

Todos os blogs maledicentes não valem um gesto poderoso de Maria Bethania.  Viva a poesia em video clip!  Em todas as mídias e interritorialidades.

Qual a relação entre a FENEARTE ,esplendor do universal artesanato, e a próxima BIENAL DO LIVRO em Pernambuco?

Por que  a primeira dama Renata Campos não é solicitada para reinventar o maior evento de nossas literaturas: orais, escritas, audiovisuais, intersemióticas, sem fronteiras de gênero.

EIS O CONVITE NECESSARIAMENTE OUSADO EM CLAMOR DA INTERPOÉTICA.
Recife,março/abril 2011.

30ª SEMANA ESTUDANTIL