Para:
Guilherme Boulos
O neoliberalismo
saiu do armário
04/09/2014 03h00 - Atualizado às
18h38
Quem diria! Mal se passaram 6 anos da crise em que as políticas
neoliberais afundaram o mundo e eles já estão aí com todo o vigor. A
aposta na mão invisível do mercado e na desregulamentação das finanças quase
levou os Estados Unidos ao colapso em 2008. Os Estados Unidos, a Europa e a
economia mundial pagam o preço até hoje.
Não demorou, porém, para que os intelectuais da banca superassem a
vergonha e o descrédito, saíssem do armário e recuperassem a autoconfiança para
defender a mesma rota do fracasso. Abstraíram 2008 e reaparecem de cara
lavada para apresentar as mudanças necessárias na economia brasileira.
Já foi dito que a história se
repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Neste caso até os
personagens são os mesmos. Vejam vocês, Armínio Fraga! As últimas três
campanhas presidenciais do PSDB o esconderam a sete chaves, assim como a FHC.
Dizem que há lugares do país que quando seu nome é citado as pessoas correm
para bater três vezes na madeira. Dá azar. Incrível, mas Aécio Neves teve a
coragem de reabilitá-lo.
Aquele que quando foi presidente do Banco Central elevou a taxa de
juros de 25% para 45%! O homem do arrocho e dos banqueiros. Que foi diretor do
Fundo de Investimento de George Soros, símbolo da especulação financeira
mundial.
E é o mesmo velho Armínio. Diz
agora que os salários subiram muito ultimamente e que a redução de juros nos
anos anteriores foi "preocupante". Em entrevista à Folha esta semana deixou claro que gostaria de rever
as regras do seguro-desemprego, aumentar a idade mínima para aposentadoria e
dificultar a concessão de pensões.
Tudo em nome do combate à inflação. Só deixa de dizer que ao fim de
sua gestão no Banco Central, no governo FHC, a inflação era de 12,5% ao ano,
quase o dobro da atual, que ele julga fora de controle. E isso com juros
estrondosos.
Sorte tem o país que o candidato
que o anunciou como futuro ministro da Fazenda está praticamente fora do páreo
eleitoral.
Mas, como diz o povo mais
acostumado a sofrer, desgraça pouca é bobagem. A queda de Aécio foi acompanhada
da subida meteórica de Marina Silva. E
Marina, talvez no afã de atrair o mercado para seu projeto, tinha já erigido
como conselheiro econômico ninguém menos que Eduardo Giannetti da Fonseca.
Economista da nata do neoliberalismo brasileiro.
Giannetti tem distribuído por aí
a mesma cantilena que arruinou os trabalhadores no Brasil, produzindo
desemprego, arrocho salarial e recessão econômica na década de 90. O discurso
de Marina é da nova política, mas começa mal ao recorrer à velha economia.
Também em entrevista à Folha, no ano passado, sistematizou sua
listinha de desejos: autonomia do Banco Central, readequar a Petrobrás e os
bancos públicos nos "critérios de mercado", desatrelar o reajuste das
aposentarias ao salário mínimo e por aí vai. O modelo de seus sonhos,
disse ele, é o segundo mandato de FHC e o primeiro de Lula (o mandato mais
conservador dos governos petistas). Cita como referência as heroicas
privatizações e a desregulamentação de capitais por FHC.
Sua obsessão –agora repetida por
Marina– é fortalecer o dito tripé macroeconômico. Austeridade fiscal, aumento
do superávit primário e livre câmbio. Não é preciso ser economista nem ter
sobrenome europeu para saber que isso implica cortes de investimentos e de
gastos sociais do Estado. Austeridade fiscal é um nome elegante para dizer
corte no orçamento público. Superávit primário é um termo técnico para se
referir à reserva de recursos para pagar juros da dívida aos banqueiros, o que,
por sua vez, implica cortes orçamentários.
Marina terá que se decidir. Ou quer manter e ampliar
políticas sociais e investimentos públicos ou quer fazer cortes. Do ponto de vista lógico tentar conciliar
os dois é tão impossível quanto empenhar-se em desenhar um círculo quadrado.
Simplesmente não dá. Marina deve a todos esta resposta. Ou está com Giannetti ou está com Chico Mendes.
A reabilitação dos neoliberais, ao que parece, não foi apenas um
apelo desesperado do PSDB, mas uma tendência do debate econômico nestas
eleições. Não deixa de ser, de algum modo, a volta dos que não foram.
Já que os governos petistas –Dilma inclusive– conservaram importantes aspectos
neoliberais em sua política econômica. Não por acaso os lucros bancários foram
recordes. O pré-sal foi concedido à exploração privada, assim como aeroportos e
rodovias.
Mas tragicamente o discurso da
mudança entre os principais candidatos não critica esse conservadorismo. Ao
contrário, diz que ele foi insuficiente e volta-se contra as limitadas
iniciativas de enfrentá-lo. A titubeante redução dos juros básicos, o uso de
bancos públicos para baratear o crédito, a atuação das estatais na indução de
investimentos e os gastos com assistência social, que não chegam a 4% do
orçamento federal.
A crítica é feita pelo viés conservador. E deixa claro que o debate
econômico no Brasil ainda é pautado pelo interesse do mercado financeiro.
Enquanto for assim teremos de conviver com o eterno retorno dos neoliberais.
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