Artista guatemalteca, em um único vídeo, discute os regimes
totalitários, a destituição Indígena em seu país e o contexto de exploração da
mulher. Uma mulher está rodeada de terra. Seu tronco geométrico, desnudo.
Estática, ela tampouco parece ter alguma coisa que vista sua mente.
A paisagem é de um
verde vivo, como se a vida estivesse próxima – todavia, parece perdida na
tentativa de viver.
Vê-se de um armazém
de perguntas. Um trator entra em cena e revela uma mão possessiva e agigantada
– cuja função é tomar, e tomar tudo.
A cena segue. O corpo
da protagonista e seus olhos se configuram como coisa petrificada e morta,
diante da indiferença sentida somente por aqueles que estão à mercê do
sofrimento. Corpo e olhar, neste contexto, seguem à frente desse outro
desconhecido, cujo domínio configura-se como sua única instância de ação.
É um pouco com esta
dinâmica que o trabalho da guatemalteca Regina José Galindo se estrutura. Para
tratar a desigualdade e as lutas enfrentadas por mulheres em todo o mundo, a
artista utilizou relatos do genocídio e dos poucos destroços restantes de uma
terra arrasada, o seu próprio país.
Segundo a autora, a
população local não quer enxergar a real tragédia que enfrentou durante a
enorme guerra civil (1960 – 1996), e a elite local é condescendente com o que
ocorreu.
“A maioria da
população está a favor da repressão, do assassinato, da brutalidade e da morte.
A maioria dos guatemaltecos, com os três dedos que é capaz de enxergar à sua
frente, aprovam o genocídio”.
Esquerda comunista
Regina explica que
havia uma gigantesca - e infundada - articulação política e cultural para o
extermínio ocorrido, partindo da justificativa da Guerra Fria e do apoio
estadunidense – com um discurso de que era necessário lutar contra a “esquerda
comunista” personificada nos índios daquele país.
“A oligarquia e as
pessoas ricas da Guatemala se aproveitaram da conjuntura de guerra para
seguirem atacando e ficarem com a maioria das terras dos povos indígenas”,
ataca.
O massacre
sistemático e deliberado dessas comunidades constituiu um dos maiores terrores
das histórias do mundo e da Guatemala. Tropas de soldados do exército e
guerrilheiros civis chegavam aos povoados indígenas e destruíam tudo o que
podia ser útil para viver: animais, plantações, comida etc.
Há relatos de que os militares
utilizavam uma retroescavadeira e faziam fossas comuns de grandes dimensões.
Depois, enterravam vivos os pertencentes ao povo Maia da região. Este processo
é o que configura a entrelinha artística de Tierra, trabalho da
artista que serve como documento e denúncia a essas violações. Durante a Guerra
Civil da Guatemala, o massacre de populações indígenas esteve latente e feito
por ambos bandos envolvidos na peleja. Somente em 2013, ano em que Regina
construiu o vídeo, o povo Ixid pode testemunhar sobre este capítulo doloroso de
sua história, responsável pela morte de mais de 1,7 mil nativos. A conclusão do
tribunal foi a de que Montt utilizara a fome e a destruição moral como armas
militares. Os informes do processo apresentam violações absurdas como meninas
apunhaladas pelo pescoço, pessoas amarradas a suas casas e queimadas por
soldados, bebês com cabeças destruídas por baionetas.
O vídeo Tierra foi
parte da exposição Las
invencibles: el trabajo de la mujer nunca se acaba, exibida em
Santiago do Chile pelo centro cultural Matucana 100 (m100.cl)
Arte e tragédia
humana
O trabalho da
performer e poeta é uma maneira praticamente sublime e paradoxal de lidar com
este luto. Utilizando imagens esvaziadas, com uma dor nascida a partir do
silêncio, ela esmiuça este drama humano que alguns sabem, mas poucos querem
enxergar.
Com cores vivas e
fortes, Regina José Galindo resgata elementos políticos e lamentáveis do
contexto latino-americano. Rememora também toda a condição feminina frente à
imposição cultural opressiva em toda a cultura latina, que exacerba a agressão
e a servidão.
Mais do que retratar
a violência histórica do continente e de seu país, a artista visual engorda a
discussão dos abusos contidos nas relações de poder, fortemente vigentes em
nosso universo contemporâneo – em especial nos países subdesenvolvidos.
Os erros do passado
seguem como uma ferida que a humanidade não pode repetir no futuro e, ainda que
de olhos tapados, precisa ver.
*
Texto disponível em
espanhol em Nicotina &
CafeínaDÊNIS MATOS
se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & ca


Nenhum comentário:
Postar um comentário