Confira trecho de Aqui, no
coração do inferno, romance de Micheliny Verunschk que será lançado em
breve pela Editora Patuá. A escritora pernambucana, doutora em Comunicação
e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, foi finalista, em 2004, do prêmio Portugal
Telecom como livro de poesia Geografia Íntima do Deserto e vencedora
do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 (categoria melhor romance de 2015 -
autor estreante acima de 40 anos) com o romance Nossa Teresa - vida e
morte de uma santa suicida.
(1)
Meu pai prendeu um garoto. Minha
madrasta chegou pra mim e minha irmã mais velha e disse,
Olha, seu pai prendeu um menino, um
rapaz de uns 14 anos, e vai trazer ele pra casa por umas horas, porque seu pai
não acha certo ele ficar na delegacia, em risco. É um menino muito novo e vocês
sabem bem como o pai de vocês é. Mas isso é só enquanto a viatura não chega pra
levar ele pra Matapombos, ninguém precisa se preocupar.
Matapombos fica a uma hora de carro
daqui e quase duas horas e meia de ônibus, dependendo da situação da estrada.
Quando chove, e chove muito, a estrada vira um lamaçal vermelho, um barro
vermelho e pegajoso, como se a lama fosse sangue, e a estrada, sua veia.
Matapombos é uma cidade bem maior do que esta em que moro e lá tem tudo o que
aqui não tem, como sorveteria, por exemplo, ou como uma fundação pra meninos e
meninas que deram errado, uma febem. Febem, Fundação Estadual do Bem- Estar do
Menor. É uma sigla. É isso o que quer dizer. Mas apesar de falar em bem, não é
lá uma coisa muito boa. De todo modo, é pra lá que o garoto vai, minha madrasta
explicou. Minha madrasta tem muitas explicações, um arsenal delas, e sempre
acha que sabemos como papai é. Não sabemos. Mas vamos descobrindo.
E ele fez o quê? Por que ele tá
preso?, perguntei.
Ela, não muito segura, como se
estivesse constrangida, contou, pausadamente, que o garoto matou umas pessoas e
a gente meio que se encolheu no susto, porque nem eu e nem minha irmã tínhamos
como imaginar papai trazendo um assassino pra dentro de casa, ainda mais um que
tivesse matado muitas pessoas. Mas papai é assim mesmo, ele não funciona como
todos pensam que ele deveria funcionar, o que faz dele um sujeito com noções
muito próprias de dever, moral, justiça e todas essas coisas que os adultos
enchem a boca pra falar.
Que maluquice! Papai não pode trazer
ele pra casa, não. Só pode tá doido, né?
Minha irmã mais velha estava mesmo
inconformada. Na verdade, minha irmã mais velha se conforma pouco com tudo.
Papai diz que ela está ficando rebelde e eles batem de frente o tempo todo, num
desgostar-se contínuo. Ela esperneia e grita e sai batendo portas. Eu acho um
desperdício ser assim, mas acho também que é preciso que alguém grite, mesmo
que o outro rebata. Faz parte do mecanismo do mundo. E quando a coisa parece
tão absurda, como essa de trazer um assassino pra dentro de casa, gritar sobre
a maluquice até parece saudável. Mas, no fim das contas, eu prefiro mesmo o
silêncio e, se possível, nenhum confronto, ou nenhum confronto direto,
especialmente com papai. Assim como a minha madrasta, que disse pra gente
confiar nele e que ficássemos sossegadas, pois o menino ia ficar na cozinha,
algemado.
Faz dois anos que chegamos a esta
cidade, eu, minhas irmãs, meu pai e minha mãe, isto é, minha madrasta. Minha
mãe mesmo morreu quando eu e minha irmã mais velha éramos pequenas. O bebezinho
é filha desse segundo casamento. Meu pai veio ser delegado daqui, cidadezinha
onde Judas perdeu as duas botas, mas isso por algum motivo havia de ser bom pra
carreira dele. Santana do Mato Verde, lugarzinho violento do caralho. Desculpe
o mau jeito, eu sou desbocada mesmo. Especialmente quando os adultos não
supervisionam.
Quando a gente chegou aqui, ainda na
entrada, de uma espiada só deu pra ver a cidade toda. A entrada fica lá em
cima, no morro, e a porra da cidade aqui, dentro de um buraco. Minha irmã ficou
impossível. Ela chorava sem parar. Aquele choro de soluçar, sabe? Eles tinham
dito pra gente que a cidade nem era tão pequena, e que a gente ia fazer novas
amizades. Que ia ser maravilhoso, aqui. Essas coisas que os adultos dizem pra
conformar as crianças, ou talvez pra se convencer eles mesmos. Coitada de minha
irmã. Tive muita pena dela. Já eu, eu não liguei muito, não. Isso porque esta
cidade é um acontecimento.
Santana é pequena. Acho que do
tamanho ou até menor que o nosso antigo bairro. O que mais me impressionou
quando cheguei aqui foi o fato de que uma cidade minúscula precisasse ter dois
cemitérios. Um na entrada, outro na saída. O que estranhei no início hoje em
dia faz muito sentido pra mim. E diz muito sobre que lugar é este, esta cidade,
um monstrengo, um bezerro deformado com uma cabeça na frente e outra na parte
de trás, as duas sempre mastigando, mascando, ruminando. Quem olhá-la num mapa
verá que é isso mesmo, que é assim que Santana é.
Quase sempre morre alguém em dia de
feira, por exemplo. Parece uma festa. Tem duas famílias que são inimigas e
volta e meia a gente escuta o estouro de balas zunindo feito o velho oeste
americano. Numa festa no clube municipal, por exemplo, teve um bangue-bangue e
morreram quinze. Desses quinze, dez eram de uma das famílias. Os outro cinco
morreram de estar na hora errada e no lugar mais errado ainda. Foi essa
chacina, aliás, que trouxe papai pra trabalhar aqui. Se minha irmã fosse contar
isso pras amigas dela, da nossa antiga cidade, acho que não acreditariam, e é
bem capaz que rissem de nós, com um pouco de pena, da arapuca em que nos
metemos. Mas a gente nem se espanta mais de ver papai saindo armado, quase
engasgado do almoço mal comido pra ver se prende bandido em flagrante. Ele diz
que é sempre melhor prender o facínora no pulo do gato. Mas não pro bandido, é
lógico. De todo modo, morre muita gente por aqui, daí que se fosse um cemitério
só, era possível que faltasse chão pra engolir todos.
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