Nesta
sexta-feira 13 que abre o carnaval (dá para imaginar o inferno astral do
Brasil nesta mistura de folia da carne com angústia da superstição para
o espírito?), lhe encaminho o magnífico trabalho visual
de Cláudia Cordeiro com a foto de Isabel no dia em que a conheci diante
do último poema que lhe fiz. E abaixo
texto que preparei para servir de prefácio ao livro Dançar com facas,
coletânea dos últimos poemas de Hildeberto Barbosa
Filho, poeta de escol e crítico de responsa. E aí vão:A luz silenciosa da poesia. José Nêumanne.
Poesia
é discurso, mas não é retórica. Retórica é para oradores, tribunos,
comunicadores. A oratória também é uma arte, a arte de confeitar bolos.
Mas a poesia, mesmo a discursiva,
é o método de descarnar o verbo, como no açougue o marchante desossa a
carne de um animal pendurada no gancho. A palavra se introduz no verso
e, depois, vai sendo exposta à deterioração do tempo, como um trapo
secando num varal. Poesia nem sempre é só síntese,
mas pode ser tratada como um pano molhado espremido até secar na pia da
cozinha. Pois, enquanto a oralidade se exibe como num espetáculo de
pirotecnia, a mancha gráfica no papel funciona como uma marca
registrada, um desenho no qual os espaços vazios expressam
o silêncio no branco que se contrapõe à sombra do tipo gráfico. Nem
tudo se encerra nesta obviedade acima descrita. Primeiro, porque nem
toda poética é gráfica nem sequer escrita. Os repentistas do sertão de
minha infância, por exemplo, são oradores
com seus mantras com modos, ritmo, métrica e rimas. Se alguém tem a
pretensão de considerar a cantoria de viola como um gênero menor está
incorrendo não em preconceito, mas em mera ignorância. Manuel Bandeira,
um dos maiores vates da literatura brasileira
de todos os tempos, foi jurado de um torneio de menestréis sertanejos
no teatro Santa Isabel, no Recife, e saiu de lá encantado com os
cantadores, particularmente com os irmãos Patriota de São José do Egito,
lá onde Lampião perdeu as botas. Depois da função,
o bardo urbano se disse, em versos, convencido de que ele mesmo não era
poeta, não. E completou justificando a súbita modéstia: “poeta é quem inventa / em boa improvisação, / como faz Dimas Batista / e Otacílio seu irmão; / como
faz qualquer violeiro, / bom cantador do Sertão”. Manuéis
Bandeiras à parte, a verdade, que vale para os irmãos Patriota, em
particular o maior de todos, Lourival, o Louro do Pajeú, é uma só: a
poesia é múltipla.
Ela se origina dos metros longos da tradição oral grega, reunida em
torno de um mito chamado Homero, e se estende pelo tempo afora na épica
de Virgílio em latim e dos criadores de idiomas - Dante Alighieri, na
Toscana; e o luso Luís de Camões, que canonizou
nosso galaico-português. Os decassílabos dos martelos agalopados
permitem o truque mnemônico da repetição da invenção improvisada pelos
tempos afora, tempos sem gravador e antes da disseminação de Gutenberg
pelos sertões ermos. A reprodução elétrica (e agora
eletrônica) dos sons levou a herança dos cantadores provençais ao
universo da cibernética – das cantigas de amigo a Norbert Wiener. E o
prelo velho de guerra permite consagrar os cordelistas de metro curto e
os poetas de minuto, cujas estrofes salpicam em
páginas quase vazias como bolhas de sabão em roupa lavada e estendida
ao sol para quarar.
Hildeberto
Barbosa Filho, meu colega no Instituto Redentorista Santos Anjos, em
Bodocongó, Campina Grande, ele egresso de Aroeiras, eu, de Uiraúna, no
sertão do
Rio do Peixe, ele, irmão de Dudezão, forrozeiro de escol, eu,
conterrâneo de Ciro de Uiraúna, o maior xilagravador do Brasil, é poeta
para todo metro. Foi discursivo em
Ira de viver, em que abordou o soneto, técnica elaborada, erudita, exigente e árdua, com maestria, e em
O livro da agonia. E minimalista bem-sucedido em São teus estes boleros. Em
Dançar com facas, o poeta de Aroeiras volta ao território do
minimalismo com uma diferença. No livro anterior, ele abordou o fazer
poético à semelhança de Philip Glass, o autor das canções minimalistas.
Agora ele burila não mais o verso curto, mas praticamente
a palavra solta no branco do papel, como John Cage fez com os sons,
valorizando o máximo o silêncio, como se quisesse nos mostrar o óbvio
que ninguém vê/ouve: o branco/silêncio interfere no preto/som, entrando
na composição como parte dela. Um exemplo deste
absoluto poder de síntese, no qual a alusão erudita dá sentido não
enunciado ao que é enunciado é
Sêneca: “Coisas perdidas. / Coisas vividas / Coisas mortas”. Outro ainda mais exemplar, por enunciar o que não é para enunciar, é
Poesia: “Luz / e silêncio”. Este último, no papel, é pugilismo puro. E do bom! A
poética, digamos, mínima não se isenta da emoção, ao contrário do que
imaginam os desavisados. Poucos poemas líricos em língua portuguesa têm
a força que o modernista paulista Oswald de Andrade deu a seu magnífico
Ditirambo: “Meu amor me ensinou a ser
simples / como um largo de igreja / onde não há nem um sino / nem um
lápis / nem uma sensualidade...” Lenilde de
Freitas, de origem recifense, mas nascida e criada na mesma Campina
Grande onde Hildeberto e eu estudamos na pré-adolescência e que ganhou
uma Bienal Nestlé de Poesia na qual fui um dos jurados, tem enriquecido o
florilégio dos brevíssimos cânticos do amor
perene com obras notáveis. Eis uma delas, A paixão desmedida: “De
tanto te desmontar / te reinvento
/ com pensamento macio. / Eis-me outra vez / no limiar de tua face. /
Por precaução / Conto um-dois-três: / eu mesmo afio teu esporão”.
Hildeberto foi neste rastro em
Confissão: “Nada desejo para mim, / exceto a tristeza sem cor /
dos olhos teus, / inclassificável beleza / que me enlouqueceu”. Há no
poema, como no de Oswald, todo o lirismo do mundo, mas pieguice, zero.
Ao contrário, o lírico minimalista Hildeberto
é de um antilirismo implacável, a exemplo de Lenilde e no rastro do
melhor da produção de Roberto Carlos, antes de se deixar sufocar com
açúcar: “Se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que
te ama...” Do
século XX para cá, desde Oswald, a poesia brasileira tem sido fértil em
minimalismo e antilirismo. A paulista e contemporânea Eunice Arruda nos
sapeca em seu
Propósito uma lição de como dizer tudo falando quase nada: “Viver
pouco / mas viver muito/ Ser todo o pensamento / Toda a esperança / Toda
a alegria / ou angústia - mas ser // Nunca morrer / enquanto viver”.
Sem levar em consideração o fato de que este
fecho é de matar de inveja qualquer poeta em atividade, convém reparar
no uso das maiúsculas ao abrir versos que exaltam a alegria de viver,
resumindo o fardo do penar a um verso aberto com letra minúscula. O
poema é realista, mas esperançoso. Nesta coletânea,
que tenho a honra de apresentar, Hildeberto refaz o poema de Eunice
pelo avesso em
Suicida: “Não sou suicida, / mas quantas vezes pensei / em sair
dessa para outra, / melhor. // O diabo é que a vida / é um grude e nos
prende / à sua casca mágica, / pesar dos remorsos, horrores, /
carências...” A palavra solta do fecho transmite uma
sensação de abandono de quase levar às lágrimas, não é? Em
Velhice esta carência abriga um pessimismo amargo se espalhando
na folha como bile: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre
corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui”. A
carência vira solidão. No caso, como se dá a perceber,
se trata de um poema que, como poucos neste livro, pode (e até deve)
ser lido em voz alta. Ou seja: estamos mais a ouvir pingos de Glass do
que a (não) escutar o longo silêncio agoniado de Cage. Mais adiante,
Hildeberto premia seu leitor com uma visão cáustica
de quem não se dispõe a perdoar: “No fim da cidade, / um loteamento de
velhos // Desertos na pele, / crateras no sangue. // Velhas com conhaque
/ na alma, lúcidos, sem horizonte” (Horizonte, um título que
resume o poema). Uma imagem como esta “conhaque
na alma” paga qualquer poema. Sem falar no truque da\ quebra da imagem
que força o pobre leitor a bisar a leitura para não perder o inusitado
da metáfora. Poucos
poetas tiveram a exatidão enxuta e a piada pronta como o caipira
apaulistanado José Paulo Paes com suas peças que mais podem ser chamadas
de epigramas pós-concretos
(ou seriam pós-modernos?). O exemplo mais radical desta faceta dele
está em Poética: “conciso? com ciso / prolixo? pro lixo”. Se
algum leitor muito avisado conseguir um manifesto mais curto, mais bruto
e mais preciso do que este, por favor, me avise
e mo mande. Um poema de Hildeberto, com o mesmo título do de Paes,
acrescido de uma ordem de descendência nobiliárquica, o
Poética IV troca a condenação feroz pela autocrítica rabugenta:
“Desgosto / de muitos poemas / que fiz... // Este nada me diz / Aquele é
pura mentira. / Outros, falsos brilhantes / que passam por lira” Hildeberto
Barbosa Filho amadurece e endurece recorrendo às raízes. Sua poesia de
agora espelha o sol inclemente do Cariri que parece queimar mais plantas
que
nascem de pedras por acaso do que participar da urdidura da clorofila. À
medida que o tempo passa, ele descobre na aspereza cinzenta de sua
paisagem de origem, além da feiúra aparente, uma beleza secreta, para
iniciados, que ele passou a apreciar assim como
também passou a celebrar com poucas vezes as profundezas do silêncio de
estepes sem vento. É o que nos expõe em
Legado: “À noite se segue o dia / como as águas abrigam / calor e
silêncio. // Resta ao homem / a pluma da linguagem, / ásperos navios de
fogo / que iluminam os vazios”. Aqui o metro se alonga além do normal e
isso se torna perceptível na leitura linear
dos versos quebrados pelo sinal gráfico que reproduz a barra (/). É
como se a forma desdissesse o conteúdo e a respiração cortasse o soluço.
O luxo do verso abundante, quase um discurso a interromper a matraca,
reforça pelo avesso a pregação permanente da
ideologia da escassez, que nos leva na obra poética dele à exposição da
carência como forma de verter até a última gota do vinho amargo no
cálice da paixão. É como ele mesmo diz em
Sentidos: “Apenas / vejo o que ouço. // Toco / o que cheiro // e saboreio as palavras”.
Este
livro é para ser lido vagarosamente. Quando o leitor acaba, tem a
sensação esquisita de que demorou pouco. Afinal, foi tudo muito rápido.
Mas aprenda que
brevidade nada tem que ver com facilidade. Ela também se conquista com a
experiência. Experimente reler e, depois, repita. Faça-o à exaustão.
Aprenderá, como eu, que só então sentirá o peso de cada palavra e a verá
gotejar na secura alva da página impressa.
José Nêumanne, poeta, jornalista e escritor, é autor de
Solos do silêncio – poesia reunida.
(Prefácio do livro dançar com facas, poemas de Hildeberto Barbosa Filho, no prelo)

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