"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de
dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." George Orwell.
Nas ruas, em casa, no trabalho, na escola, nos
shoppings, em qualquer lugar que se vá, somos vigiados. Nada escapa aos olhos,
digo, as lentes atentas das câmeras. Somos monitorados, invadidos,
fiscalizados, escaneados e mais um pouco. Nada de privacidade, tudo se
convergiu em púbico ou potencialmente em público. E não ousem pensar em nada
diferente, pois, a vigilância nos nossos tempos é, em grande parte, voluntária.
O controle feito pelo Partido, “personificado”
pelo Big Brother, no mundo distópico de Orwell, se dá pela vigilância
constante, a qual controla tudo, inclusive, os pensamentos dos indivíduos.
Desse modo, o indivíduo deve estar integralmente sob o controle do Big Brother,
que tudo vê e ouve. Assim, qualquer desvio de conduta, ainda que seja em pensamento,
é considerado crime, o qual se chama “crimideia”.
Não há, portanto, a possibilidade do indivíduo
pensar por si mesmo, tampouco, questionar a realidade posta pelo Partido. Bem
como, todo meio que propicie o autoconhecimento, como fazer algo sozinho, é
visto como uma conduta imprópria e perigosa, a qual se chama “proprivida”. Ou
seja, os indivíduos são despersonalizados e convertidos em autômatos
controlados pelo Big Brother.
O mundo em 1984 não difere em nada do nosso. A
vigilância que sofremos contemporaneamente é tão autoritária e controladora
quanto a do livro. Assim como no livro, somos dominados pela ideologia
dominante, o que significa dizer em termos marxistas, que a dominação não
acontece pela força, mas sim, pelo convencimento. Isto é, a realidade é moldada
segundo as vontades da classe dominante, que nos vendem como verdades as suas
mentiras arquitetadas.
Essa falsa consciência da realidade, que
aceitamos, no entanto, não é construída e controlada apenas pelo Estado. É o
que bem atenta Foucault, uma vez que os mecanismos de poder, na sociedade
capitalista, se subdividem em micro-relações, de modo que ultrapassam o Estado
e atingem a vida cotidiana. Sendo assim, a vigilância acontece em todas as
esferas do convívio social, produzindo e impondo normas de comportamento e
adequação.
Seguindo o modelo do panóptico, há uma
visibilidade total do indivíduo, fazendo com que a sua vida privada também se
converta em pública, a fim de que seja controla nos mínimos detalhes. Esse
aspecto torna-se possível pelos aparelhos tecnológicos e pela internet. Estes
são como a teletela de Orwell e exercem a mesma função do Big Brother, qual
seja, vigiar a vida das pessoas, assim como, punir os inadequados.
A vigilância total das sociedades atuais
deveria causar desconforto e falta de liberdade. Entretanto, as pessoas parecem
estar à vontade e totalmente dispostas a contribuir para o controle. Imersos no
conteúdo midiático, seguem as ordens do Big Brother que lhes indica o que deve
ou não ser feito, o que em uma sociedade consumista, pode ser resumido como o
que deve ou não ser (existe essa possibilidade?) comprado. Após isso, correm
para as redes sociais, para que possam postar suas selfies, demonstrando para o
Big Brother que, como bons companheiros, seguiram à risca os seus comandos.
Essa vigilância voluntária é o que Bauman
chama de “vigilância líquida”, já que consentimos em não somente fazer parte,
como também, contribuir para o controle, desconsiderando todos os perigos de
uma vida totalmente vigiada e controlada. Dentro de um modelo panóptico, isto
é, de visibilidade total, a vigilância tornou-se liquefaz e, assim, é capaz de
ocupar todos os espaços.
Com uma vida vigiada, nos tornamos autômatos,
sem vida e subjetividade, como os sujeitos do mundo de Orwell. Embora nos
achemos diferentes e autênticos, nos comportamos da mesma forma, como se
tivéssemos saído das páginas de 1984, vestindo os macacões azuis dos membros do
Partido. Somos meros reprodutores do discurso do Big Brother, sem poder crítico
e com a gama de pensamento reduzida. Insistimos em manter as teletelas ligadas
o tempo inteiro e não hesitamos em demonstrar a nossa obediência a sua
magnificência.
Estamos sob o controle do Big Brother para
Orwell, da ideologia para Marx, do panóptico para Foucault e da vigilância
líquida para Bauman. Cercados de grades que ajudamos a construir, mas que
fazemos de tudo para não enxergar, somos controlados em cada suspiro do nosso
pensamento. Para não sermos inadequados, abdicamos da intimidade para
tornamo-nos massa singular de lentes aprisionadoras e microfones que
impossibilitam qualquer palavra autêntica, já que, quando passamos a postar
fotos de comida no Instagram, fica difícil acreditar que os sonhos não estão
sendo monitorados.
PUBLICADO EM SOCIEDADE POR ERICK MORAIS
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