O desconforto causado pelo excesso de informações não é um
fenômeno tão recente como se imagina. O casal Toffler chamava a atenção para
ele em meados da década de 60, já alertando para seus perigos.
Alvin Toffler anda distante dos holofotes. As palavras do
homem que nos anos 70 e 80 foi gurú de hackers em formação, de futuros
publicitários, empresários e governantes, estão soterradas pela avalanche de
supérfluos que sufoca tudo e todos. Mas Toffler foi um dos primeiros, ou talvez
o primeiro, a chamar a atenção para os efeitos do excesso de informações e para
a sensação de caos que hoje nos envolve.
Toffler previa e prevê o futuro. Então ele é astrólogo,
cartomante, pai de santo, profeta? Bem... Não. Alvin Toffler nasceu em Nova
York, em 1928. Cursou Letras na Universidade daquela cidade, onde conheceu sua
esposa, a então estudante de Linguística Heidi Toffler. Juntos eles pesquisam e
publicam, desde a década de 60, os resultados de seus estudos numa área que
ficou conhecido como Futurologia, ou seja, a ciência que analisando o presente
por diferentes perspectivas, identifica tendências de futuro.
O método de pesquisa dos Toffler envolve a análise
científica de dados e combinação de informações de áreas distintas como a
Economia, a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia, a Psicologia, entre
outras. Entre os principais títulos publicados estão Choque do Futuro (1970), Aprendendo
Para o Futuro (1974), A Terceira Onda (1980), A Empresa Flexível (1985),
Powership, as Mudanças do Poder (1990), Riqueza Revolucionária (2006) e O
Futuro do Capitalismo (2012). São seus temas frequentes a sociedade industrial,
o avanço científico e tecnológico, a realidade virtual, a vida cotidiana e suas
transformações, os nichos de mercado, a sociedade do conhecimento e a
acelerações das mudanças.
Em Choque do Futuro (1970), os Toffler chamam a atenção para
o ritmo crescente das mudanças e o impacto que viria a causar na sociedade, ou
melhor, que já estava causando. Diz Alvin Toffler: “Em 1965, em um artigo na
revista Horizons, cunhei a expressão choque do futuro, para descrever a
esmagadora tensão e a desorientação a que induzimos os indivíduos quando os
sujeitamos a um excesso de mudanças em muito pouco tempo”. Ele explica que tal
choque surge da crescente defasagem entre o ritmo de mudanças percebidas no
ambiente em que estamos inseridos e a capacidade humana de adaptação. É um
fenômeno temporal que tem implicações psicológicas e que é causa de mal-estar,
neurose coletiva, irracionalidade e violência. Seria o "choque do
futuro" a explicação para tanto ódio que circula nas redes sociais, para a
indiferença crescente que marca as relações humanas? Toffler descreve o quadro:
“Tire um indivíduo de sua própria cultura e coloque-o de
repente num ambiente totalmente diferente do seu próprio, com um conjunto
diverso de pistas para reagir – diferentes concepções de tempo, espaço,
trabalho, amor, religião, sexo e tudo mais – e em seguida retire dele qualquer
esperança de retornar a uma paisagem social mais familiar, e o deslocamento que
ele sofrerá será, sem dúvida, muito grave. E mais, se essa nova cultura está,
ela mesma, em constante torvelinho, e se – pior ainda – seus valores se
encontram em incessante mudança, o tempo de desorientação será mais ainda
intensificado. Recebendo um número muito reduzido de pistas sobre o tipo de
comportamento que é racional debaixo de circunstâncias radicalmente novas, a vítima
pode muito bem vir a se tornar um problema para si e para os outros. Agora
imagine não apenas um indivíduo, mas toda uma sociedade, toda uma geração –
incluindo seus membros mais fracos, menos inteligentes e mais irracionais –
transportada repentinamente para esse mundo novo. O resultado é a sua
desorientação em massa, choque do futuro em alta escala.”
Em outras palavras, todo espaço social é caracterizado por
uma cultura que se transforma ao longo de um tempo histórico. O indivíduo é
corpo biológico que se desenvolve em um determinado espaço social, assimilando
sua cultura e se transformando biologicamente e psicologicamente à medida que a
assimila. Assim, seus hábitos e seu modo de pensar estão em estreita relação
com seu aprendizado. Para ele, o mundo faz sentido no interior dessa cultura
que ressalta, ela mesma, o que é considerado como mais e ou como menos
importante. Sair de um espaço social e chegar a outro implica deixar uma
cultura e seus modos de vida para adentrar uma outra cultura, com outros modos
de viver marcados por valores distintos. A adaptação exige tempo. Quando as
mudanças são constantes e a um ritmo acelerado, o indivíduo fica mentalmente
desorientado. Ele não pode mais se basear numa cultura na qual viveu, pois ela
desapareceu, mas também não teve tempo para adaptar-se a uma nova cultura que
também está desaparecendo.
Tal situação, já percebida pelos Toffler em meados da década
de 60, tinha por causas o aumento populacional, a industrialização, o avanço
científico e tecnológico e o acesso crescente aos meios de comunicação
(lembrando que o rádio e a televisão eram invenções recentes que se
massificavam, que os satélites de comunicação entraram em operação na década de
50, enquanto os computadores estavam em pleno desenvolvimento), nos dias de
hoje o fenômeno tornou-se ainda mais grave, com aceleração ainda mais intensa
provocada pelo uso da TV a cabo, da Internet e dos sistemas de comunicação
móvel.
Os Toffler não são pessimistas. Para eles, o progresso é
necessário e o único caminho para garantir melhores condições de vida para
todos. Porém, frente ao "choque do futuro" a humanidade encontra-se
diante da necessidade de superar um grande desafio, o que só pode ser feito por
meio de um conjunto de medidas tanto de ordem pessoal quanto coletiva.
O controle racional dos fluxos de mudança, desconectando-se
e acelerando, segundo Alvin e Heidi, é possível a quem realmente se conhece e
pode avaliar suas próprias condições de saúde física e mental. É preciso
conscientizar-se do problema (com ajuda profissional, caso seja necessário),
desenvolver novas e criativas estratégias, testá-las e abandoná-las caso
mostrarem-se inadequadas. Paradoxal é que para controlar o fluxo de informações
e seus efeitos, é preciso ainda mais informações, o suficiente para tornar
possível a discussão publica do desenvolvimento tecnológico, seus benefícios,
malefícios e prioridades, além de planos de educação e pesquisa.
Choque do Futuro foi lançado no Brasil pela Editora Record.
Está fora de catálogo, mas ainda é possível encontrá-lo em sebos. Embora esteja
desatualizado ainda vale ser lido como retrato de uma época que muito tem em
comum com os dias atuais.
Publicado em literatura por Helena Novais.
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